Fonte da imagem: Índice S&P 500
Em março de 2026, Tom Lee, cofundador da Fundstrat, reafirmou numa entrevista aos media que mantém inalterada a sua meta para o S&P 500 no final do ano, nos 7 700 pontos. Esta projeção integra a sua visão de mercado de longo prazo — não se trata de uma revisão pontual.
Sublinhou que esta meta é uma “estimativa conservadora”, baseada apenas numa expansão moderada do rácio preço/lucro, excluindo cenários de flexibilização extrema da liquidez ou de crescimento explosivo dos resultados.
Em simultâneo, apresentou uma ideia que gerou amplo debate no mercado: Historicamente, a guerra tem sido frequentemente uma oportunidade de compra.
A lógica de Tom Lee não resulta apenas do sentimento; assenta em três mecanismos essenciais:
Os mercados antecipam o risco: As guerras tendem a desenrolar-se de forma gradual, e não a surgir de repente. O mercado começa a ajustar os preços dos ativos antes do início formal dos conflitos.
O prémio de risco diminui após dissipar-se a incerteza: Assim que o conflito se concretiza e o pior cenário se confirma, o mercado entra numa fase de “certeza restaurada”.
A política e a liquidez tendem a virar-se para o estímulo: Em contexto de guerra, as políticas orçamental e monetária procuram geralmente estimular a economia, sustentando os preços dos ativos.
Assinalou que, nas últimas oito grandes guerras, os mercados formaram normalmente um fundo logo no início do conflito, e não apenas após o seu termo.
Os dados históricos demonstram que o impacto da guerra no mercado acionista decorre em fases distintas:
Fase inicial (escalada): A volatilidade do mercado intensifica-se, os ativos de risco desvalorizam
Fase intermédia (eclosão): O pânico atinge o máximo, os mercados estabilizam gradualmente
Fase final (estímulo político): A reconstrução económica e a expansão orçamental impulsionam a valorização
Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Golfo, o mercado acionista estabeleceu um fundo logo na fase inicial do conflito.
Este fenómeno demonstra que o mercado está mais atento às “mudanças nas expectativas” do que ao evento em si.
Tom Lee destacou que o mercado atual não se encontra numa fase de “risco não absorvido”; pelo contrário, já sofreu um ajustamento estrutural:
Setor energético: Três anos de mercado baixista
Setor financeiro: Fraqueza persistente
Gigantes tecnológicas (MAG-7): Em ciclo de ajustamento
Estes setores representam, em conjunto, cerca de 70% do S&P 500, o que indica que o mercado como um todo já realizou uma redução significativa do risco.
Além disso, a subida parabólica do ouro antes do conflito sinaliza que o capital já migrou para ativos de refúgio. O mercado não ignora o risco — já o absorveu.
A meta dos 7 700 pontos assenta não só no sentimento ou no precedente histórico, mas em três grandes variáveis macroeconómicas:
Ciclo de liquidez: Se a Reserva Federal terminar o aperto ou iniciar uma política expansionista, dará um apoio determinante ao mercado acionista.
Crescimento dos lucros empresariais: Os avanços em IA e automação estão a impulsionar a produtividade, criando oportunidades de crescimento estrutural dos resultados.
Expansão das valorizações: Com a descida das taxas de juro, o mercado está disposto a atribuir múltiplos de valorização mais elevados.
Sob a perspetiva da estrutura de capital, o próximo movimento ascendente poderá surgir de três direções:
Setores de tecnologia e IA: Permanecem como narrativa central
Indústrias tradicionais que já ajustaram substancialmente: Potencial para recuperação das valorizações
Regresso do capital institucional: Após a redução de risco anterior, as posições mantêm-se relativamente baixas
Importa referir que uma subida do mercado não implica necessariamente um “bull market” generalizado. Pode manifestar-se como rotação estrutural e nichos de desempenho acentuado.
Apesar de Tom Lee se manter otimista, a sua análise não implica ausência de risco:
Os conflitos geopolíticos podem agravar-se
Um ressurgimento da inflação pode limitar a flexibilidade da política monetária
Valorizações excessivas em IA podem motivar correções
Caso os lucros empresariais desiludam, a base para as subidas enfraquece
Assim, a ideia de que “a guerra é um ponto de compra” deve aplicar-se a alocações faseadas e incrementais — não a tentativas cegas de apanhar o fundo.
Com base na informação atual, o percurso do S&P 500 até aos 7 700 poderá envolver:
Volatilidade de curto prazo (impulsionada pelo risco geopolítico)
Estabilização a médio prazo (risco já absorvido)
Subida de longo prazo (impulsionada pela liquidez e pelos lucros)
Durante este processo, a narrativa do mercado vai passar gradualmente do “risco” para a “oportunidade”. “No final, o foco do mercado não está na crise em si, mas no potencial de crescimento que se segue.”
A previsão de Tom Lee para os 7 700 pontos do S&P 500 não é apenas um cenário otimista, mas uma avaliação abrangente baseada em padrões históricos, estrutura de mercado e variáveis macroeconómicas.
A ideia de que “a guerra é um ponto de compra” revela uma lógica mais profunda: os movimentos ascendentes do mercado surgem muitas vezes da incerteza, e não da certeza.
Para os investidores, o essencial não é julgar a guerra em si, mas identificar:
Quando o risco está refletido nos preços
Quando a liquidez muda de direção
Quando os resultados se concretizam
Só quando estes três fatores convergirem é que uma verdadeira subida do mercado poderá materializar-se.





