Quando a informação privada se torna uma arma: como o comércio interno está a dominar os mercados de criptomoedas

Há há muito tempo que o mercado de criptomoedas apresenta um problema que os reguladores financeiros tradicionais consideravam exclusivo das bolsas de valores. A questão é que os grandes detentores de ativos – fundadores, desenvolvedores, funcionários de projetos e bolsas de criptomoedas – usam regularmente informações privilegiadas não divulgadas para obter lucros extraordinários. Este fenómeno está a atingir proporções de uma epidemia que mina a confiança no mercado de criptomoedas.

O que os insiders escondem? Mecanismos de manipulação

A informação privilegiada no mundo cripto tem suas formas específicas. Pessoas que possuem dados confidenciais sobre atualizações técnicas, forks de projetos ou planos de listagem em grandes bolsas obtêm uma vantagem comercial injusta. Um cenário clássico: um desenvolvedor de projeto descobre uma futura atualização de código, vende suas moedas antes do anúncio, ou, pelo contrário, acumula ativos antes de uma notícia positiva.

Uma prática especialmente cínica é o acúmulo de posições até ao listing em plataformas de negociação de topo. Funcionários ou insiders de bolsas de criptomoedas sabem com antecedência quais tokens terão acesso a milhões de potenciais utilizadores. Compram ativos a preços mais baixos, aguardam o aumento da procura após o anúncio do listing, e depois vendem no pico da volatilidade. Este esquema gera lucros contaminados para alguns e compromete a fiabilidade dos preços para os restantes participantes do mercado.

Quando o mundo cripto era o “Velho Oeste”: história de crescimento não controlado

Durante muitos anos, o espaço de criptomoedas permaneceu quase não regulado. Ao contrário dos mercados tradicionais de ações, onde a Comissão de Valores Mobiliários e Bolsas (SEC) e órgãos semelhantes estabeleceram regras claras, o cripto funcionava como o Velho Oeste digital. Isto criou um espaço livre para manipulações, pump-and-dump, campanhas de publicidade falsas e comércio de insider em massa.

Frequentemente, observavam-se esquemas de “pump-and-dump”, em que um grupo de pessoas combina para comprar uma moeda, cria hype através de notícias falsas e publicidade intensificada, e depois vende sincronizadamente num momento determinado – deixando os investidores comuns com um ativo morto. Segundo investigadores da Universidade de Tecnologia de Sydney, o comércio de insider ocorre em 27-48% dos listings de criptomoedas. Não são casos isolados – é um fenómeno sistemático.

Consequências reais: quando a informação privilegiada chega aos tribunais

Os primeiros casos de grande destaque mostraram que os reguladores estão a levar a sério a luta contra isto. Em 2017, a empresa Long Island Ice Tea mudou repentinamente de nome para Long Blockchain Corp. e anunciou a transição para o mundo do blockchain. Em poucos dias, as ações dispararam 380%. Mas a operação foi uma fraude pura – a empresa nunca entrou no negócio de blockchain. Três pessoas que negociaram ações, tendo acesso a informações confidenciais, foram acusadas. Dois réus pagaram multas de 400 mil dólares.

Em 2021, o chefe de produto da OpenSea, Nate Chastain, usou a sua posição para comprar coleções de NFTs antes de serem destacadas na página principal da plataforma. Quando esses ativos entravam na tendência, o seu valor disparava. Em três meses, ganhou 57 mil dólares de forma desleal. Foi condenado a três meses de prisão e a uma multa de 50 mil dólares.

O caso mais emblemático foi o da Coinbase em 2022. Ishan Wahi, gestor de desenvolvimento de produtos, fazia parte da equipa que coordenava anúncios de novas criptomoedas e tokens na bolsa. Ele sistematicamente contava ao irmão e a um amigo sobre os próximos anúncios, permitindo-lhes comprar pelo menos 25 ativos digitais antes do anúncio. O lucro total ultrapassou 1,1 milhão de dólares. Ishan foi condenado a dois anos de prisão, o irmão a 10 meses. Foi um momento chocante para a indústria – quando se descobriu que até um dos maiores players do mercado se tornou um refúgio para o comércio de insider.

Martelos jurídicos: que penas aguardam os infratores

Nos EUA, as penas por comércio de insider são todas, mas suaves. O infrator pode receber até 20 anos de prisão, dependendo da gravidade. As multas criminais para indivíduos físicos podem atingir 5 milhões de dólares, para corporações até 25 milhões.

Mas não é tudo. As multas civis podem equivaler ao triplo do lucro obtido com o esquema. Ou seja, se um insider lucrou um milhão, paga uma multa de 3 milhões. Além disso, a pessoa perde o direito de ocupar cargos de direção em empresas públicas, há ordens de apreensão de ativos, e a reputação é destruída para sempre por escândalos públicos.

A SEC não vai baixar a guarda: como as criptomoedas entraram na mira dos reguladores

Nos últimos anos, a SEC tem classificado cada vez mais criptomoedas como valores mobiliários. Ripple (XRP), Cardano (ADA), Solana (SOL) – todos eles agora estão sob supervisão da comissão. Isto significa que o mesmo conjunto de regras sobre comércio de insider, aplicado às ações tradicionais, agora se aplica também aos ativos digitais.

O presidente da SEC, Gary Gensler, reiterou várias vezes a posição oficial: se um desenvolvedor vende tokens com a expectativa de que os compradores obterão lucros graças aos esforços da equipa de desenvolvimento, então trata-se de um valor mobiliário, e as regras aplicam-se. Isto muda significativamente o panorama para projetos cripto e bolsas.

O token Sui (SUI) em outubro de 2024 subiu mais de 120% em um mês, atingindo $2,25. Este salto gerou uma onda de acusações de comércio de insider. A equipa do Sui negou publicamente essas críticas, mas o caso apenas reforça a luta contínua da comunidade cripto por transparência e justiça.

Descentralização como escudo contra informações privilegiadas

Em contraste com a vulnerabilidade das bolsas centralizadas, as bolsas descentralizadas (DEX) por sua natureza são menos suscetíveis ao comércio de insider tradicional. A tecnologia blockchain garante a transparência das transações e dados – tudo acontece à vista de todos. Embora o anonimato do blockchain seja frequentemente considerado sua maior vantagem para a privacidade, também o torna uma ferramenta excelente para monitorizar e rastrear atividades suspeitas.

No entanto, a perspetiva de uma descentralização total continua a ser uma esperança. Grande parte do capital cripto ainda se acumula em plataformas centralizadas, que servem de entrada no mercado para a maioria dos investidores.

O caminho à frente: aumento dos padrões de segurança

As empresas de cripto e as bolsas começaram a implementar medidas internas mais rigorosas. A maioria das plataformas centralizadas desenvolvidas implementou verificações “conheça o seu cliente” (KYC) e medidas contra lavagem de dinheiro (AML). A Binance até anunciou uma recompensa de até 5 milhões de dólares por informações sobre comércio de insider na sua plataforma – o incidente ocorreu após um whale de cripto comprar 314 milhões de tokens BOME antes do seu listing.

Apesar disso, as DEX menos reguladas continuam a ser uma zona cinzenta. Com o crescimento da indústria e o aumento da supervisão regulatória, até plataformas descentralizadas sentirão uma pressão reforçada para implementar ferramentas de deteção de anomalias e de prevenção de manipulações.

Contexto histórico: quando o mundo percebeu pela primeira vez o problema

Em 1909, a Suprema Corte dos EUA estabeleceu um precedente: um diretor de uma empresa que compra ações com informações privilegiadas não divulgadas, levando a um aumento de preço, comete fraude. Mais de um século depois, essa lógica finalmente começou a aplicar-se também às criptomoedas.

Ou seja, se o mesmo caso acontecesse em 2024 com um token em vez de uma ação tradicional, o desenvolvimento da história seria semelhante. A lei evoluiu, mas a natureza da ganância humana – não.

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