Como Caroline Ellison se tornou uma testemunha-chave na história: sentença em Nova Iorque

O Tribunal Federal de Nova Iorque proferiu em setembro de 2024 a sentença de uma das figuras centrais no escândalo da bolsa de criptomoedas FTX. Caroline Ellison, de 29 anos, ex-CEO da Alameda Research, recebeu uma pena de 24 meses de prisão. Além disso, foi-lhe atribuída uma compensação de aproximadamente 11 bilhões de dólares pelos prejuízos causados, e após o cumprimento da pena, ficará sob supervisão por três anos. A decisão do tribunal destaca-se pelo contraste com a abordagem de outros envolvidos neste grande esquema de fraude financeira.

O tribunal recomendou que Ellison cumpra a pena em uma instituição de segurança mínima perto de Boston, onde reside sua família. A legislação federal exige que a condenada cumpra pelo menos 75% da pena antes de poder solicitar liberdade condicional.

Juiz Kaplan: reconhecimento de cooperação excepcional

O juiz Lewis A. Kaplan, que conduziu o julgamento, demonstrou evidente simpatia pela ré. Sua declaração refletiu uma avaliação positiva do seu papel na revelação do esquema criminoso. “Você se encontrava em uma posição vulnerável e foi usada”, afirmou, dirigindo-se a Ellison antes de anunciar a sentença. “Seu arrependimento é sincero”.

O aspecto mais notável foi o reconhecimento do juiz quanto à escala da cooperação da acusada com a justiça. Kaplan observou que, em três décadas de experiência judicial, conheceu muitos testemunhos dispostos a ajudar as investigações, mas nada semelhante ao apoio de Caroline Ellison. Essa avaliação ganhou peso especial no contexto do dano causado.

No entanto, mesmo reconhecendo a cooperação excepcional, o juiz não pôde ignorar a gravidade do crime. “A FTX representa uma das maiores fraudes financeiras da história do país”, destacou Kaplan. Ele explicou que, apesar das contribuições de Ellison para ajudar a justiça, evitar completamente a prisão não era possível. “Em um caso tão sério, não tenho autoridade para conceder total isenção de pena”, afirmou antes de proferir a sentença.

Testemunhos contra Sam Bankman-Fried: momento decisivo na investigação

A importância de Caroline Ellison no processo contra o fundador da FTX, Sam Bankman-Fried, é difícil de subestimar. Durante o julgamento em 2023, ela prestou depoimento detalhando diversos aspectos das atividades criminosas. Ellison afirmou que Bankman-Fried tentou subornar políticos estrangeiros e deliberadamente forneceu relatórios financeiros falsos aos credores, ocultando dados críticos sobre os ativos.

A acusação qualificou seu testemunho como “a pedra angular” da acusação contra Bankman-Fried. A assistente do procurador dos EUA, Danielle Sassoon, destacou durante o julgamento que, sem as informações confiáveis fornecidas por Ellison, seria muito mais difícil construir uma acusação completa.

No início de 2024, Bankman-Fried foi considerado culpado de todos os sete cargos e recebeu uma sentença de 25 anos de prisão. Atualmente, ele recorre da decisão judicial.

Contraste entre os dois condenados: o papel do arrependimento nas decisões judiciais

A sentença de Caroline Ellison revela uma diferença fundamental na abordagem dos tribunais aos envolvidos no mesmo crime. Enquanto Bankman-Fried, segundo o tribunal, não demonstrou arrependimento sincero e tentou minimizar sua responsabilidade, Ellison mostrou profundo entendimento do ocorrido.

Na audiência, ela fez uma breve declaração pedindo desculpas aos clientes prejudicados da FTX e Alameda Research, seus ex-colegas, amigos e familiares. “A mente humana não está preparada para compreender a escala de números grandes”, disse ela com a voz trêmula. “Nem consigo imaginar toda a dor que causei”.

Seu advogado, o sócio-gerente do renomado escritório de advocacia Wilmer Hale, Andjan Sakhni, argumentou que Ellison foi enganada por Bankman-Fried, com quem tinha um relacionamento romântico. Quando a empresa quebrou, ela, segundo a defesa, “recalculou sua bússola moral” e decidiu colaborar totalmente com as autoridades.

Até mesmo o Escritório de Probation e a defesa recomendaram ao tribunal que levasse em conta a ajuda prestada por Ellison na investigação ao determinar a pena.

Consequências práticas: prazos e condições de cumprimento

Ellison tem cerca de um mês e meio até o momento em que deverá se apresentar voluntariamente ao Escritório de Prisões para iniciar o cumprimento da pena. Como o crime é federal, aplicam-se prazos rígidos de liberdade condicional — ela só poderá solicitar a libertação antecipada após cumprir pelo menos 18 meses dos 24 de pena.

Durante a audiência, Ellison refletiu sobre o quanto evoluiu desde a pessoa que era antes. “Se em 2018 alguém me dissesse que me declararia culpada de fraude, diria que você está louco”, compartilhou com o tribunal. “A cada etapa deste processo, ficou mais difícil encontrar uma saída… Lamento não ter tido coragem de parar antes”.

Expansão das investigações: novos casos de insider trading

Paralelamente ao caso principal da FTX, desenvolve-se uma investigação adicional relacionada a violações em plataformas de mercados preditivos. A Kalshi, que negocia instrumentos derivativos, acusou dois de seus usuários de insider trading. Um deles trabalhava para o popular criador de conteúdo MrBeast e supostamente realizou operações com base em informações sobre episódios futuros de seu programa.

A plataforma suspendeu as atividades dos infratores e aplicou multas. A Beast Industries, empresa de MrBeast, informou que está conduzindo uma investigação própria. A Comissão de Comércio de Futuros de Commodities (CFTC) publicou uma carta consultiva destacando as ações da Kalshi e apontando esses casos como possíveis violações à lei. O presidente da comissão chamou as bolsas semelhantes à Kalshi de “primeira linha de defesa” contra manipulações de mercado.

Significado da decisão no contexto da indústria de criptomoedas

A sentença de Caroline Ellison tem um impacto que vai além de um único julgamento. Ela estabelece um precedente sobre como o sistema judicial americano avalia a participação em grandes crimes financeiros e a importância da cooperação total com as autoridades.

A CoinDesk, publicação que cobre eventos no setor de criptomoedas e que recebeu prêmios por suas investigações sobre a queda da FTX, continua a documentar detalhadamente esses processos. A reportagem destaca que o caso de Caroline Ellison demonstra tanto os avanços do sistema judicial dos EUA na responsabilização quanto a complexidade de equilibrar justiça e reconhecimento da ajuda fornecida às investigações.

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