DePIN e Crypto: A Promessa de Infraestrutura Descentralizada que Atrai Bilhões

Nos últimos anos, uma nova tendência emergiu no universo das criptomoedas capaz de movimentar bilhões de dólares em investimentos: as redes de infraestrutura física descentralizada, conhecidas como DePIN. Enquanto a maior parte do setor crypto opera no “éter” – dados circulando em blockchains e gráficos de preços oscilando – projetos DePIN prometem uma conexão tangível com o mundo real: construir infraestrutura física descentralizada, desde redes sem fio até sistemas de armazenamento de dados, mantidos por comunidades de contribuidores incentivados por tokens.

Por Que DePIN Atrai Bilhões de Dólares em Investimentos

O entusiasmo de capitalistas de risco e fundos institucionais pelo DePIN não é infundado. Segundo dados de fevereiro de 2024, a capitalização de mercado total de todos os tokens DePIN ultrapassou US$ 25 bilhões, com os principais projetos arrecadando mais de US$ 1 bilhão combinados. Fundos como Borderless Capital, especializada neste segmento, gerenciou investimentos em mais de 30 projetos DePIN e está levantando seu terceiro fundo de US$ 100 milhões especificamente dedicado a este ecossistema.

Pranav Kanade, gerente de portfólio do fundo de ativos digitais da VanEck, expressa confiança no potencial transformador: “Acreditamos que DePIN é uma categoria que tem o potencial de hospedar um aplicativo matador com um bilhão de usuários. Esses usuários estariam usando blockchains públicos sem necessariamente perceber que estão interagindo com um produto crypto.”

A promessa central é revolucionária: substituir infraestruturas centralizadas tradicionais – que gigantes como AT&T, Deutsche Telekom ou China Mobile controlam completamente – por redes descentralizadas onde participantes comuns podem configurar e manter a infraestrutura, ganhando recompensas nativas em troca.

A Brecha Incômoda Entre Avaliação e Realidade Financeira

Apesar do impressionante valor de mercado de dezenas de bilhões de dólares em tokens DePIN, existe um abismo preocupante quando se trata de receita real. Rob Hadick, sócio-geral da Dragonfly, um dos maiores fundos de venture capital crypto, revelou números alarmantes: o setor inteiro gera aproximadamente US$ 15 milhões por ano em receita combinada.

Esta disparidade levanta questões críticas sobre a saúde financeira dos projetos. “A maioria dos protocolos não é limitada pela oferta, mas pela falta de demanda”, afirmou Hadick em entrevista. Este diagnóstico aponta para o desafio mais antigo do crypto: a adoção efetiva de usuários. Enquanto investidores celebram métricas especulativas de preço, os projetos DePIN enfrentam uma realidade humilde: poucos clientes reais utilizando seus serviços.

Solana Emerge Como a Blockchain Ideal para Projetos DePIN

Uma descoberta significativa no ecossistema DePIN tem sido o papel estratégico de Solana. Aproximadamente 20 projetos DePIN principais, incluindo Render, io.net e Nosana – que executam redes de computação descentralizadas – foram construídos sobre o blockchain Solana. Até mesmo o pioneiro Helium, que originalmente operava seu próprio blockchain, migrou para Solana em 2023.

Sean Farrell, chefe de estratégia de ativos digitais na FundStrat, identifica a razão técnica fundamental: “Muitos desses projetos DePIN teriam sido obrigados a construir em uma cadeia de alto rendimento sem adoção ou construir a sua própria. Agora que Solana entrou no grupo como um lugar legítimo para construir, isso resolveu o problema de infraestrutura.”

A vantagem competitiva de Solana sobre blockchain de camada 1 como Ethereum é clara: possui a largura de banda para processar alto volume de transações a custos relativamente baixos, sem necessidade de passar para blockchains de camada 2 mais complexas. Ethereum, notoriamente caro e lento, gerou todo um ecossistema de Layer 2s especificamente para resolver este gargalo.

Ariel Seidman, cofundador do Hivemapper – uma rede de mapeamento descentralizada que recompensa colaboradores com tokens HONEY e é construída em Solana – resumiu os três fatores decisivos: “Baixas taxas de transação, facilidade de uso e qualidade do ecossistema. Os tokens DePIN se tornam imediatamente utilizáveis em aplicativos DeFi em Solana.”

Casos de Sucesso Demonstram o Potencial

O projeto Helium Mobile ilustra bem como construir ambos os lados de uma rede DePIN funcionalmente. Segundo Farrell: “Acho que a Helium Mobile demonstrou como construir efetivamente tanto oferta quanto demanda – acho que era isso que faltava no blockchain de camada 1 que ele havia construído.” Esta transição bem-sucedida oferece um modelo que outros protocolos buscam replicar.

Outros projetos notáveis incluem:

  • Render: Oferece uma rede de processamento gráfico descentralizado
  • Akash Network: Fornece computação em nuvem descentralizada
  • Filecoin: Proporciona armazenamento descentralizado de dados
  • Ritual: Lidera iniciativas na interseção de DePIN e inteligência artificial

Estes casos mostram que quando a demanda pelo serviço subjacente é claramente identificável – ou seja, quando clientes reais já existem – o modelo tende a funcionar mais viável.

A Realidade Dos Desafios

Os analistas identificam obstáculos significativos para a adoção em massa de DePIN. Strahinja Savic, chefe de dados e análises da FRNT, adverte: “DePIN representa um risco maior para investidores em comparação com investimentos mais estabelecidos como bolsas de câmbio, mineração ou infraestrutura de staking. Incentivar o desenvolvimento de infraestrutura física é outro nível de comprometimento com um projeto.”

Um risco particular envolve a dinâmica de tokens. Muitos projetos DePIN usam tokens como único mecanismo de recompensa para incentivar participantes a construir e manter infraestrutura física custosa. Christopher Newhouse, analista de finanças descentralizadas da Cumberland Labs, observa: “O DePIN é até agora um playground para grandes instituições e VCs, não para varejistas.”

A volatilidade de preços apresenta outro desafio crítico. Dado que a maioria das recompensas é paga no token nativo do protocolo, as flutuações de preço afetam diretamente os ganhos dos colaboradores. “Uma grande volatilidade pode desencorajar o envolvimento contínuo se as recompensas forem vistas como uma fonte de receita não confiável”, segundo análises do setor.

O Modelo Econômico Que Faz (Ou Não) Funcionar

A maioria dos projetos DePIN segue o modelo “burn and mint equilibrium” – um sistema de dois tokens onde colaboradores ganham tokens e consumidores queimam tokens ao usá-los para pagamentos. Este modelo exige equilíbrio perfeito entre oferta e demanda.

Pranav Kanade da VanEck divide os projetos DePIN em duas categorias segundo suas probabilidades de sucesso:

Primeira categoria: Projetos que seguem a abordagem “construa e eles virão”. Estes escalam agressivamente o lado da oferta com incentivos de token, criando inflação token em larga escala. Só então buscam abordar o lado da demanda. “Esses projetos tendem a ser altamente especulativos e, em muitos casos, a demanda não existe, dificultando encontrar usuários”, explica Pranav. Ele é cético quanto ao sucesso a longo prazo deste grupo, pois a demanda (queima de tokens) permanece pouco clara.

Segunda categoria: Projetos onde a demanda pelo serviço subjacente é claramente identificável, significando que clientes já existem. “Acreditamos que esses projetos têm uma probabilidade maior de sucesso, pois podem equilibrar a oferta e a demanda de tokens muito antes no ciclo de vida da existência do token”, afirma Pranav.

Brian Rudick, estrategista da GSR, concorda com essa análise mas introduz outro fator crítico: “Em teoria, os projetos DePIN podem repassar seus custos mais baixos de construção de infraestrutura para os clientes para estimular demanda. No entanto, na prática, os produtos ou serviços DePIN oferecidos podem ser de qualidade inferior às soluções tradicionais que foram otimizadas ao longo de décadas, anulando essa vantagem de custo.”

Tendências Atuais e Perspectivas do Mercado

Enquanto o setor crypto geral enfrentou pressões vendedoras significativas – com Bitcoin caindo de níveis próximos a US$ 69 mil – o segmento DePIN continua atraindo atenção institucional qualificada, diferentemente do frenesi varejo que tipicamente impulsiona moedas meme e altcoins voláteis.

Anand Iyer, fundador da Canonical Crypto, uma venture capital de estágio inicial, observa uma mudança importante: “Estamos vendo a verdadeira utilidade do hardware descentralizado ganhar vida à medida que as necessidades de computação para IA aumentam. Empresas e protocolos como Akash Network e Ritual estão liderando o caminho e esperamos ver mais participantes aproveitando redes descentralizadas para casos de uso não relacionados a criptomoedas.”

Esta observação sugere que o sucesso futuro de DePIN pode não estar em substituir toda a infraestrutura centralizada tradicional, mas em preencher nichos específicos onde descentralização oferece vantagens tangíveis – particularmente em computação para inteligência artificial e outras aplicações técnicas exigentes.

Conclusão: Hype ou Realidade?

O investimento massivo de capitalistas de risco em DePIN reflete genuína convicção em seu potencial transformador. A categoria demonstra oportunidades reais quando dois critérios são cumpridos: demanda clara por serviços subjacentes e construção simultânea de oferta e demanda.

Porém, o setor permanece em estágios muito iniciais. A brecha entre capitalização de mercado em dezenas de bilhões e receita real de US$ 15 milhões anuais serve como lembrete crítico de que nem todo entusiasmo de investidores se traduz em adoção sustainable. Os projetos DePIN com maior potencial de sucesso serão aqueles que resolvem problemas reais e concretos para usuários reais – não aqueles que dependem principalmente de inflação de tokens para alimentar especulação.

O futuro do DePIN no ecossistema crypto será determinado não por promessas de infraestrutura descentralizada, mas por execução: quantos usuários efetivamente utilizarão estes serviços, por quanto tempo permanecerão engajados, e se as vantagens econômicas e técnicas conseguem superar décadas de otimização das soluções centralizadas incumbentes.

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