A grande mudança na Disney: os desafios de governação corporativa refletidos na busca pelo sucessor de Bob Iger

A Disney enfrenta uma época de grande turbulência. A questão da sucessão de Bob Iger, que deixará o cargo em 2026, não é apenas uma mudança de liderança, mas uma questão fundamental sobre que tipo de liderança é necessária numa fase de transformação global da indústria do entretenimento. Aprendendo com as turbulências do passado, o conselho de administração da Disney está a abordar a seleção do próximo líder com uma cautela e organização sem precedentes.

História da saída de Bob Iger e a crise de sucessão

À medida que se aproxima o final de 2026, quando Bob Iger deixará o cargo de CEO da Disney, a indústria do entretenimento aguarda ansiosamente a revelação do seu sucessor. No entanto, a sucessão nesta gigante empresa enfrenta um contexto histórico complexo.

Desde que assumiu como CEO em 2005, Iger adquiriu sucessivamente os três principais estúdios de cinema, Pixar, Marvel e Lucasfilm, transformando a Disney num império mediático moderno. Contudo, ao prolongar várias vezes o seu mandato, o processo de sucessão ficou disfuncional. Tom Staggs foi nomeado COO em 2015 como potencial sucessor, mas, sob a gestão de Iger, acabou por sair após apenas um ano, frustrado.

No final de 2021, Iger anunciou uma saída, mas o seu sucessor, Bob Chapek, foi destituído após apenas oito meses, obrigando Iger a regressar inesperadamente por quatro anos. Estas mudanças frequentes criaram uma profunda desconfiança entre investidores e executivos internos. “O processo de sucessão da Disney acumulou uma história de turbulência vergonhosa para uma grande empresa”, afirma David F. Larcker, diretor do Corporate Governance Research Initiative de Stanford.

Novo modelo de governação: as reformas de James Gorman

A nova direção da Disney foi liderada por James P. Gorman, um reformador de governança corporativa. Aos 67 anos, nascido na Austrália, Gorman é conhecido pelo seu mandato de 14 anos na Morgan Stanley. Durante a crise financeira de 2008, liderou a reconstrução do banco de investimento e garantiu um crescimento estável subsequente. Quando se aposentou em dezembro de 2024, tinha conduzido um processo de sucessão meticuloso, ganhando a confiança de funcionários e acionistas.

“São poucos os líderes que conseguem gerir uma transição de liderança com tanta eficácia”, afirma Erika H. James, presidente da Wharton Business School. A nomeação de Gorman como presidente da Disney não foi apenas uma decisão de gestão, mas uma estratégia para recuperar a cultura e a confiança organizacional.

Como presidente, Gorman colocou a escolha do sucessor como prioridade máxima. A sua abordagem baseou-se em aplicar na Disney o sucesso que obteve na Morgan Stanley, envolvendo repetidamente os candidatos com o conselho e promovendo um processo transparente e de diálogo.

Quatro candidatos à sucessão: uma análise comparativa

Quatro executivos internos da Disney estão a competir pelo cargo de CEO. Cada um deles tem experiência em diferentes setores da empresa.

Josh D’Amaro (Responsável pelos parques)

O mais apoiado pelos investidores é Josh D’Amaro, responsável pelos parques da Disney. Com 27 anos na empresa, liderou um ambicioso plano de expansão de 60 mil milhões de dólares, inaugurando várias novas atrações. Os parques são a principal fonte de receita da Disney, e D’Amaro tem um forte histórico de sucesso nesta área. Contudo, tem experiência limitada nos setores criativos de cinema e televisão.

Dana Walden (Responsável por televisão e streaming)

Dana Walden, que lidera as plataformas de televisão e streaming, representa uma possibilidade de mudança. Se for escolhida, será a primeira CEO mulher na história de 102 anos da Disney. Desde que entrou na empresa em 2019, proveniente da Fox, é altamente avaliada pela sua relação com talentos criativos. No entanto, a sua experiência com os parques, uma fonte de grande lucro, é limitada, o que pode ser um obstáculo na sua candidatura.

Alan Bergman e Jimmy Pitaro

Responsáveis pelos estúdios de cinema e pela ESPN, respetivamente, também são considerados candidatos fortes, cada um com uma reputação elevada nas respetivas áreas.

Lições do sucesso na Morgan Stanley

Para compreender o impacto que Gorman pode ter na Disney, é importante analisar a sua abordagem na Morgan Stanley. Gorman sempre afirmou que o segredo de uma sucessão bem-sucedida reside em princípios simples: “Tudo começa com uma pergunta simples: quero realmente deixar o meu cargo? Eu quis, e foi assim que consegui que o sucessor tivesse sucesso.” Esta filosofia profunda está na base do seu estilo de liderança.

Na Morgan Stanley, em outubro de 2023, quando Ted Pick foi nomeado CEO, os outros dois finalistas foram promovidos a co-presidentes, com bônus de retenção significativos. Esta estratégia ajudou a minimizar a fuga de talentos e a manter a continuidade organizacional.

Espera-se que o conselho da Disney adote um modelo semelhante, incluindo a criação de cargos de co-presidentes para apoiar o novo CEO e oferecer benefícios aos candidatos não selecionados.

Desafios estruturais que a Disney enfrenta

A próxima liderança da Disney não terá apenas de garantir a continuidade do negócio, mas também de responder às mudanças estruturais do setor.

A rápida transição do televisão tradicional para plataformas de streaming, a evolução acelerada da inteligência artificial, a incerteza económica nos EUA e a polarização política representam desafios múltiplos. As ações da Disney, que atingiram cerca de 200 dólares em março de 2021, estão atualmente a ser negociadas a cerca de 111,20 dólares, refletindo a desilusão dos investidores.

“Estamos numa encruzilhada histórica”, afirma o analista de mídia Robert Fishman. “É preciso demonstrar como a estratégia de streaming gera receitas, recuperar o valor do conteúdo premium e impulsionar o crescimento dos parques temáticos.”

Competências e determinação necessárias ao próximo CEO

O próximo CEO da Disney enfrentará uma missão complexa: consolidar o sucesso do Disney+ como líder global de streaming, reforçar a competitividade dos estúdios e franquias, revitalizar os parques, supervisionar o novo resort em Abu Dhabi e adaptar-se à era da inteligência artificial, tudo sem comprometer o valor das personagens icónicas que representam a marca.

Além disso, há desafios internos, como a possível saída de candidatos não selecionados. Quando Chapek foi nomeado CEO em 2020, Kevin Mayer, responsável pelo streaming, deixou a empresa logo após. A saída de executivos-chave pode criar lacunas na gestão.

“Uma mudança de CEO não é apenas uma questão de liderança, mas um evento que afeta toda a organização”, afirma Larcker. Assim, Gorman e o conselho devem também cuidar cuidadosamente da composição da equipa de gestão que apoiará o novo líder.

Lições do passado e o futuro da Disney

A história das mudanças de liderança na Disney tem sido marcada por turbulências. Eisner saiu devido a conflitos com o conselho, enquanto Iger revitalizou a empresa com aquisições estratégicas. Contudo, também há contradições: Iiger, ao longo do tempo, dificultou o processo de sucessão, atrasando a renovação geracional.

A nova filosofia de sucessão de Gorman representa uma mudança de uma liderança concentrada para uma governança mais transparente e dialogante. “As organizações evoluem através da mudança. Repetir os mesmos padrões impede o crescimento”, afirmou Gorman à Bloomberg em 2023.

Com a saída de Iger e a eleição do novo sucessor em 2026, a Disney apresentará ao setor uma lição sobre como uma empresa tradicional pode superar a sua própria sucessão, moldando o futuro do setor do entretenimento.

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