Dediquei os últimos cinco anos a procurar soluções para o problema do alinhamento de incentivos no setor crypto. Eis o que conclui:
A maioria dos tokens foi desenhada para colocar os detentores em concorrência direta.
Isso contraria o propósito inicial. Os tokens deveriam unir equipas, investidores e utilizadores em torno de um objetivo coletivo. Se todos detêm o mesmo ativo, todos querem o sucesso do projeto. O conceito era acertado. No entanto, criámos modelos de tokens onde o lucro advém da venda, não da manutenção. E esta decisão de design comprometeu todo o sistema.
Este texto não é uma apresentação de algo que estou a desenvolver. Reflete aquilo que considero fundamental para o setor e que deveríamos solicitar aos reguladores que promovam.
Temos vindo a assistir ao mesmo ciclo há oito anos: lançamento, hype, desbloqueio dos insiders, venda massiva, comunidade a suportar perdas. O padrão tornou-se tão habitual que já não é reconhecido como um problema. É simplesmente a mecânica dos tokens. Porém, creio que não fomos transparentes quanto à causa raiz. E não observo ninguém a defender um modelo de token realmente superior — um exemplo concreto que possamos indicar como o caminho certo a seguir.
Entramos numa janela regulatória inédita. Avançamos sem uma resposta clara sobre o que define um token eficaz.
Quando o lucro advém da venda de um token, cada detentor passa a ser concorrente dos restantes.
Uma equipa lança um token. Os investidores entram cedo. A equipa fica com uma alocação significativa sujeita a vesting. Os utilizadores adquirem tokens no mercado secundário. Em teoria, existe alinhamento. Na prática, todos observam os demais a tentar identificar o momento ideal para vender. Os investidores procuram vender após o primeiro desbloqueio. A equipa pretende garantir ganhos. Os utilizadores querem vender antes dos insiders. Isto não é alinhamento; é uma corrida para a saída.
Lockups e calendários de vesting não resolvem o problema. Apenas estabelecem quem vende primeiro, e normalmente são os insiders antes do público. O “metajogo” deixa de ser como fazer crescer o projeto e passa a ser quando vender.
E quanto aos buybacks? Burns? Recompensas de staking? São tentativas legítimas de resolução, mas partilham uma fraqueza: são indiretas. Buybacks e burns impulsionam o preço — mas o lucro mantém-se na venda. As recompensas de staking tendem a ser piores, remunerando os detentores com novos tokens que diluem a oferta e geram pressão de venda. Uma passadeira mascarada de rendimento.
Se o modelo de token obriga os detentores a vender para lucrar, não existe alinhamento de incentivos; criou-se um jogo de cadeiras musicais.
Já se observam sinais de que o setor está a compreender este problema. Aave, Morpho e Uniswap avançaram para a integração entre detentores de equity e detentores de tokens, eliminando a separação entre insiders e comunidade ao reunir todos à mesma mesa. A importância é real.
Mas não resolve o problema da saída. Todos continuam a jogar o mesmo jogo: lucrar através da venda. Os modelos de revenue sharing condicionados por governança e as comutações parciais de taxas são avanços, mas insuficientes. O que elimina a lógica de saída é uma abordagem total.
Imagine um token em que 100% da receita do protocolo é gerida pelos detentores. Não pela equipa. Não em circuito fechado. A governança decide a alocação: o que é distribuído diretamente, o que financia desenvolvimento, o que constitui reservas. Tal como nas empresas cotadas — os acionistas votam sobre dividendos ou reinvestimento. A versão crypto é mais direta e transparente.
Não há lockups porque não existe metajogo. O lucro não está na venda. Está na manutenção. Sempre que o protocolo gera receita, cada detentor recebe a quota-parte definida pela votação. Ao vender, deixa de lucrar. Ao manter, continua a beneficiar. O cálculo é simples e a estratégia clara: contribuir para o aumento da receita do protocolo.
Um exemplo concreto: um protocolo gera 1 milhão $ por ano. Os detentores votam distribuir 70% e reinvestir 30% em desenvolvimento. Existem 1 milhão de tokens. Cada token recebe 0,70 $ por ano, e o protocolo cresce porque o desenvolvimento está financiado. Não é necessário acertar o timing, nem superar outros detentores. Basta manter.
A competição passa a ser entre protocolos, na disputa por utilizadores e receita. Não entre detentores, nem entre timings.
Quando todos beneficiam ao manter, o incentivo é a retenção e advocacia. Estes projetos assemelham-se mais a empresas tradicionais do que a apostas de risco. Dividendos em vez de valorização. Receita em vez de hype. É o que o setor crypto precisa neste momento.
Por dois motivos, ambos em mudança.
Primeiro, jogar como insider era mais lucrativo. Quando se pode multiplicar por 10 vendendo ao público durante o hype, não há incentivo para criar um negócio real. Mas esse ciclo está a terminar. O público está mais informado, a análise on-chain expõe movimentos dos insiders, e as equipas que permanecem são as que procuram construir.
Segundo, a legislação sobre valores mobiliários. Um token que distribui receita assemelha-se a um security segundo o teste Howey. Isso assustou equipas sérias durante anos. Mesmo sabendo que o revenue share era superior, o risco de ser classificado como um security não registado impedia a ideia de avançar.
Por isso, muitos protocolos canalizam valor por mecanismos indiretos como burns e buybacks. Não por serem melhores, mas por permitirem argumentar que não há distribuição de receita. O design dos tokens foi moldado tanto pelo medo jurídico quanto pela engenharia.
Há também uma razão prática: faltava infraestrutura. A distribuição automática e trustless de receita em larga escala exige transações acessíveis, smart contracts fiáveis, infraestrutura robusta. Há cinco anos, fazê-lo em Ethereum mainnet custaria mais em gas do que a receita do protocolo. L2 e infraestrutura moderna tornaram o processo possível.
O contexto regulatório evoluiu mais no último ano do que nos oito anteriores. A SEC criou um Crypto Task Force em janeiro de 2025, liderado pela Comissária Hester Peirce, com mandato explícito para “definir linhas regulatórias claras e criar vias realistas de registo”. Peirce propôs um quadro de safe harbor para tokens, dando espaço a projetos para se desenvolverem antes da classificação. A SEC e a CFTC publicaram uma declaração conjunta sobre harmonização da regulação de ativos digitais. Não são sinais vagos — são novas regras em preparação.
Esta janela é limitada. As eleições intercalares são este ano. A atual composição política que permitiu esta abertura pode não sobreviver ao próximo ciclo eleitoral. Se esperarmos, a janela pode fechar antes de apresentarmos algo relevante. E se a próxima crise de tokens ocorrer antes de existir uma alternativa credível, será essa crise a definir o modelo regulatório — não o setor.
Por isso esta discussão é urgente. Não defensivamente, nem reativamente, mas de forma proativa. Se não mostrarmos aos reguladores o que são bons modelos de tokens, irão legislar com base nos maus exemplos. Os lançamentos extrativos e pump-and-dumps tornar-se-ão norma, e os modelos legítimos de revenue sharing serão prejudicados.
A tendência de fusão equity-token de projetos como Aave, Morpho e Uniswap já demonstra que o setor pretende evoluir para modelos com substância económica. A regulação deve apoiar esse caminho, não dificultá-lo. Mas só o fará se o setor apresentar argumentos claros e públicos, antes que seja tarde.
Se está a desenhar um token, questione-se: os seus detentores lucram ao vender ou ao manter?
Se a resposta for vender, criou um jogo de cadeiras musicais. Alguns irão ganhar, a maioria não. E os que perderem não esquecerão.
Se a resposta for manter, criou um sistema em que todos ganham ao aumentar o valor global. Este é o alinhamento que os tokens deveriam promover desde o início.
O problema não está resolvido. O revenue share levanta questões sobre classificação de tokens, mecânica de distribuição e governança. Mas é um ponto de partida superior ao atual.
Partilhe, discuta, proponha modelos melhores. Não tenho todas as respostas. Mas sei que o modelo em vigor está falhado, e a discussão sobre a sua correção é mais relevante do que qualquer solução isolada.
A janela regulatória está aberta, mas não será eterna. As eleições intercalares vão redefinir o contexto. O próximo colapso de tokens pode fechar a porta aos modelos de revenue share antes de serem devidamente considerados. Se queremos regras superiores, devemos apresentar aos reguladores exemplos concretos — agora, não no próximo ciclo.
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