Autor: Gray Lobster, Deep Tide TechFlow
Os desenvolvedores do Ethereum têm um hábito tácito: se puder evitar usar EVM, evita-se usar EVM.
Nos últimos anos, sempre que uma nova operação criptográfica era necessária na cadeia, a primeira reação dos desenvolvedores não era implementá-la na EVM, mas solicitar a adição de um “contrato pré-compilado”, uma forma de contornar a máquina virtual, codificando diretamente na camada do protocolo.
Em 1 de março, Vitalik Buterin publicou um longo post no X, revelando essa camada de superficialidade. Sua mensagem principal foi: todo o significado do Ethereum reside na sua versatilidade; se a EVM não for suficiente, devemos resolver isso de frente, criando uma máquina virtual melhor.
Ele apresentou duas abordagens concretas.
A primeira mudança é na árvore de estado do Ethereum. Pode-se entender isso como o “sistema de índice do livro-razão” do Ethereum, onde cada consulta de saldo ou validação de transação exige percorrer essa árvore.
O problema é que, agora, essa árvore está muito “gorda”. O Ethereum usa uma estrutura chamada “Árvore Merkle de Keccak de seis ramos” (nome longo como um feitiço). A proposta do Vitalik, EIP-7864, é substituí-la por uma árvore binária mais simples.
Para ilustrar: antes, consultar um dado envolvia escolher entre seis caminhos, agora só há esquerdo e direito. O resultado? O comprimento das ramificações Merkle é reduzido a um quarto do original. Para clientes leves, isso reduz drasticamente a largura de banda necessária para validação.
Mas Vitalik não quer apenas trocar a forma da árvore. Ele também quer trocar a “fonte dos hashes”, ou seja, a função de hash. As opções são duas: Blake3 e Poseidon.
Vale destacar que essa solução substitui, na prática, as Verkle Trees, discutidas por anos na comunidade. As Verkle Trees eram a principal escolha para o hard fork de 2026, mas, devido à ameaça quântica na criptografia de curvas elípticas, começaram a perder popularidade a partir de meados de 2024, enquanto a abordagem de árvores binárias ganhou espaço.
A segunda mudança é mais audaciosa e controversa: substituir a EVM por uma arquitetura RISC-V de longo prazo.
RISC-V é um conjunto de instruções de código aberto, inicialmente sem relação com blockchain, mas atualmente usado na maioria dos sistemas de provas ZK. A lógica de Vitalik é direta: já que os provadores usam RISC-V, por que manter uma máquina virtual que fala outra linguagem, com uma camada de tradução? Eliminando essa camada, a eficiência aumenta.
Um interpretador RISC-V precisa de apenas algumas centenas de linhas de código. Vitalik afirma que essa é a forma ideal de uma máquina virtual de blockchain.
Ele planeja três etapas: primeiro, usar a nova VM para executar contratos pré-compilados, reescrevendo 80% deles com a nova VM; segundo, permitir que desenvolvedores implantem contratos na nova VM paralelamente à EVM; terceiro, desativar a EVM, mas não eliminá-la — ela será reescrita como um contrato inteligente rodando na nova VM, garantindo compatibilidade total.
Os usuários antigos não precisam trocar de carro. Apenas o motor será substituído silenciosamente, mantendo o volante na mesma direção.
Qual a importância dessas mudanças? Vitalik fornece um número: a árvore de estado e a VM representam mais de 80% do gargalo de prova do Ethereum. Em outras palavras, sem mexer nessas duas áreas, a escalabilidade do Ethereum na era ZK ficará estagnada.
Porém, essa não é uma história unânime.
Em novembro passado, a equipe principal do Arbitrum, Offchain Labs, publicou uma refutação técnica detalhada. Quatro pesquisadores argumentaram que: RISC-V é adequado para provas ZK, mas não para o “formato de entrega” de contratos.
Eles fizeram uma distinção importante: “conjunto de instruções de entrega” (dISA) e “conjunto de instruções de prova” (pISA) não precisam ser iguais. Usar um empilhador na loja é ótimo, mas isso não significa que o entregador também precise usar um.
Offchain Labs defende o uso de WebAssembly (WASM) como formato de entrega de contratos, com fundamentos sólidos: WASM é eficiente em hardware padrão; a maioria dos nós Ethereum não roda chips RISC-V, então seria necessário um emulador; WASM possui mecanismos maduros de validação de segurança de tipos; sua ecologia de ferramentas já foi testada em bilhões de ambientes de execução.
Mais importante, eles já testaram na prática: criaram um protótipo no Arbitrum usando WASM como formato de entrega, compilando para RISC-V para provas ZK. Assim, as duas camadas operam independentemente, sem interferir.
Eles também alertam para um risco: a tecnologia de provas ZK evolui rapidamente. Recentemente, a implementação de RISC-V passou de 32 bits para 64 bits. Se hoje travarmos o RISC-V na camada L1 do Ethereum, e daqui a dois anos surgir uma arquitetura melhor, estaremos presos a uma aposta em um alvo em rápida mudança — algo que não é típico do estilo do Ethereum.
Para entender essa proposta, é preciso um panorama mais amplo.
Há um mês, Vitalik questionou publicamente se o Ethereum ainda precisa de um “roteiro específico para L2”, provocando uma resposta coletiva da comunidade L2. Ben Fisch, CEO da Espresso Systems, comentou ao CoinDesk que: o objetivo inicial do L2 era escalar o Ethereum; agora, com o Ethereum ficando mais rápido, o papel do L2 deve evoluir.
Curiosamente, as L2 não estão assustadas, mas sim começando a se “deseternizar”. Jing Wang, cofundador da OP Labs, comparou as L2 a sites independentes, enquanto o Ethereum é a camada de liquidação aberta. Marc Boiron, CEO da Polygon, foi mais direto: o verdadeiro desafio não é escalar, mas criar espaço de bloco exclusivo para cenários reais, como pagamentos.
Em outras palavras, a grande mudança na execução do Ethereum reflete uma tendência maior: o Ethereum está recuperando o controle de suas capacidades centrais, enquanto as L2 estão, por necessidade ou por escolha, encontrando razões para sua existência independente.
Vitalik admite que: a substituição da VM ainda não tem consenso amplo na comunidade de desenvolvedores. A reforma na árvore de estado, com a EIP-7864, já possui um rascunho concreto e uma equipe de avanço. Mas a substituição do EVM por RISC-V? Ainda está no estágio de “roteiro”, longe de ser codificada.
Porém, Vitalik deu uma declaração impressionante na semana passada: o Ethereum já trocou seu motor a jato uma vez (referindo-se ao The Merge), e pode trocar mais cerca de quatro vezes — árvore de estado, consenso enxuto, validação ZK-EVM, substituição da VM.
A atualização Glamsterdam, prevista para o primeiro semestre de 2026, e a Hegota, logo após, ainda não têm detalhes finais, mas a reforma na árvore de estado e otimizações na camada de execução são as principais linhas de desenvolvimento.
A história do Ethereum nunca foi uma questão de “se é possível”. Desde a transição de PoW para PoS, passando por sua expansão de L1 para Rollups, ele já demonstrou capacidade e coragem para desmontar seu motor em alta altitude.
O que está em jogo agora é algo mais profundo — não adicionar novas funcionalidades, mas escavar e reconstruir a fundação antiga. Será uma renovação planejada ou um buraco sem fundo de complexidade crescente? A resposta só deve ficar clara em 2027.
Mas uma coisa é certa: o Ethereum não pretende ser apenas um “sistema antigo com patches” na era ZK. Quanto às atualizações, a discussão sobre como trocar o motor e quais componentes usar pode ser, talvez, mais valiosa do que a própria conclusão.
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