
Em 2017, o mercado de blockchain vivenciou seu momento de maior euforia. O Bitcoin saltou de US$1.000 no início do ano para US$20.000 em dezembro, enquanto os smart contracts do Ethereum transformaram o universo cripto. Em meio a essa onda de capital, a EOS despontou como o projeto mais ousado da era dos ICOs, lançando-se com o lema de 'Blockchain 3.0' e a missão declarada de 'substituir o Ethereum'.
Entender as razões do fracasso da EOS exige olhar para seus começos grandiosos. O whitepaper da EOS apresentava uma visão utópica que cativou investidores. O projeto prometia um milhão de TPS (transações por segundo), alegando resolver os problemas de escalabilidade que afetavam Bitcoin e Ethereum. Oferecia transações livres de taxas, eliminando o alto custo do gas e facilitando a adoção. Com produção de blocos ultrarrápida sob comando de 21 supernós, a EOS se propunha como um supercomputador descentralizado que tornaria os DApps realidade, alinhando-se ao sonho do universo cripto.
A credibilidade do projeto estava ancorada na figura de BM (Dan Larimer), considerado um visionário no setor. BM havia sugerido mudanças no consenso do Bitcoin a Satoshi Nakamoto, fundado BitShares e Steemit, e era reconhecido como um dos engenheiros mais brilhantes do segmento. Combinando idealismo utópico e uma equipe de marketing de alto nível, a ambição da EOS foi escancarada ao mundo.
Em 26 de junho de 2017, a EOS iniciou seu crowdfunding, planejado para durar um ano — algo inédito, já que a maioria dos ICOs durava semanas ou meses. O resultado foi surpreendente: US$185 milhões arrecadados em apenas 24 horas. No encerramento, a EOS atingiu US$4,2 bilhões, estabelecendo o recorde de maior captação da história cripto, muito acima dos US$18,5 milhões do Ethereum.
Com US$4,2 bilhões em caixa, a EOS tornou-se uma potência financeira no ecossistema de criptomoedas. Em abril de 2018, o preço da EOS disparou de US$5 para US$23, um salto de 360% em apenas um mês, alcançando o quinto maior valor de mercado, atrás apenas de Bitcoin, Ethereum, Ripple e Bitcoin Cash. A mídia publicou manchetes como 'EOS será a primeira criptomoeda trilionária' e 'BM é o novo Satoshi Nakamoto'. Até desenvolvedores do Ethereum temeram que a ascensão da EOS precipitaria o declínio da plataforma.
As eleições dos supernós ganharam status de evento geopolítico. Nomes como Li Xiaolai e Lao Mao participaram, enquanto exchanges, pools de mineração e fundos tradicionais entraram na disputa. O pleito foi apelidado de 'IPO de Wall Street do blockchain'. Comunidades da China, EUA e Coreia do Sul fizeram do processo uma 'guerra nacional das criptomoedas', com a Coreia declarando que 'não votar era não ser coreano'. A Coin Capital de Li Xiaolai controlava quatro armazéns de votação, enquanto o grupo de Wenzhou fez compras milionárias de EOS. O entusiasmo e o volume de investimento apontavam para um sucesso sem precedentes.
Porém, sob o clima festivo, tudo era sustentado por uma torre de Babel feita de código e dinheiro — bela no papel, mas estruturalmente frágil.
No auge da euforia, problemas críticos começaram a surgir silenciosamente. O sistema de votação da EOS foi duramente criticado pela facilidade de controle por grandes detentores, colocando em xeque a real descentralização dos supernós. Após o lançamento da mainnet, diversos problemas técnicos vieram à tona, levando desenvolvedores a questionar a estabilidade da rede. O envolvimento de grandes exchanges e consórcios de capital minou a justiça nas eleições dos supernós, fragmentando a comunidade. Além disso, mudanças frequentes de BM nos mecanismos de governança geraram caos e abalaram a confiança da comunidade.
Mesmo assim, o mercado manteve o clima de celebração, abafando questionamentos diante do discurso de que 'a EOS mudaria o mundo'. Neste período dourado, os entusiastas acreditavam que a EOS se tornaria a líder do setor blockchain. Mas a realidade mostrou-se muito mais dura que as utopias, e poucos previram a queda acentuada de um projeto tão prestigiado em poucos anos.
No lançamento da EOS, a escalabilidade era o principal desafio para o blockchain. O Bitcoin processava apenas 5-6 transações por segundo, o Ethereum cerca de 20, ambos longe do necessário para aplicações reais. Em datas como o Double 11 da Alibaba, o volume ultrapassava 100.000 transações por segundo. Por isso, a promessa da EOS de um milhão de TPS capturou a imaginação do universo cripto.
Mas a realidade foi outra. Quatro meses após o lançamento da mainnet, o TPS máximo foi de apenas 3.996 — muito longe do prometido. Enquanto isso, o Ethereum avançava com soluções Layer 2, e competidores como Solana e outras blockchains ganhavam espaço, eliminando a suposta vantagem da EOS.
Descobriu-se que a promessa de 'milhão de TPS' era retórica. BM havia condicionado esse desempenho a um ecossistema de sidechains ilimitado. Em sua teoria, se uma rede lidasse com 4.000 transações e 100 sidechains operassem em paralelo, seriam 400.000 TPS. Mas, em 2024, a EOS só lançou três sidechains — duas delas abandonadas. Diante das críticas, BM anunciou pesquisas para novas soluções de escalabilidade, mas o valor de mercado da EOS já estava fora do top 20.
Além da frustração com o TPS, a usabilidade se tornou o principal problema. Mesmo sem taxas explícitas, usuários precisavam fazer staking de tokens para obter CPU. Em períodos de congestionamento, o staking se agravava: era preciso alocar 5 EOS em CPU para transferir apenas 10 EOS. Isso congelava os fundos dos usuários em picos de demanda. Em 2020, durante um surto de uso em DApps, usuários relataram que 2.000 EOS davam direito a apenas 1,3 segundo de CPU, obrigando operações repetidas até para uma simples transferência.
Para piorar, BM impôs limite ao fornecimento de RAM, gerando especulação e aumento de preços em 100 vezes. Desenvolvedores se depararam com custos proibitivos para adquirir armazenamento. Em poucos meses, desde 2018, o preço da RAM subiu de 0,01 EOS/KB para 0,9 EOS/KB, prejudicando o desenvolvimento de DApps e levando muitos projetos a abandonar a plataforma.
No fim, esse modelo de recursos gerou uma experiência pior que a do Ethereum. Na rede Ethereum, basta pagar o gas para concluir transações; na EOS, era preciso entender e operar um sistema complexo de colateralização, gastando valores consideráveis em CPU e RAM. Essa barreira dificultou o desenvolvimento do ecossistema de DApps, comprometendo a proposta central da EOS.
Apesar disso, a EOS teve um pico de atividade no fim de 2018 e início de 2019, puxado por DApps de apostas. Dados de 24 de dezembro de 2018, comparando ETH, EOS e TRON, mostraram: EOS tinha 75.346 usuários (superando TRON e ETH), 23.878.369 transações (mais que TRON e ETH) e US$345 milhões em volume (acima de TRON e ETH). Os números indicam que a EOS chegou a ter engajamento genuíno, justificando a nostalgia de veteranos do setor.
BM apostou alto no modelo de governança da EOS, acreditando que 21 nós bem desenhados superariam a estrutura do Ethereum. Ele imaginava que dois terços agiriam eticamente e que a comunidade expulsaria nós maliciosos, criando uma utopia. Mas a realidade desmontou esses pressupostos.
Três meses após o lançamento da mainnet, o suborno entre nós se tornou rotina. Grandes detentores e nós faziam acordos mútuos para garantir recompensas. Mais grave: nós agiram de má-fé, evidenciando falhas na governança. Num caso de roubo, a solução era colocar o endereço do hacker na blacklist dos 21 supernós. Mas um nó não cumpriu a medida, permitindo a transferência dos fundos durante sua vez, como se nada tivesse acontecido.
BM tentou impor limites com a Constituição da EOS, mas logo percebeu sua ineficácia. Como os supernós se beneficiavam dos acordos, não havia incentivo para seguir as regras. O mecanismo de arbitragem era inoperante e sem força real.
A governança fracassou sucessivamente. Antes da mainnet, BM propôs uma Constituição inovadora, mas o texto foi revisado várias vezes em poucos meses, aumentando a insatisfação. Em junho de 2018, a constituição dava aos supernós poder arbitral sobre transações, mas após abusos, BM alterou o texto semanas depois, proibindo interferência. Em 2019, BM propôs abolir a constituição e adotar a 'governança por contrato de usuário', gerando confusão e incerteza. Esse modelo instável destruiu a confiança de desenvolvedores e investidores.
Durante a crise, BM e a controladora redirecionaram o foco da mainnet EOS para o software EOSIO. BM defendia que 'o futuro do blockchain está nas aplicações corporativas', promovendo o EOSIO para empresas criarem redes privadas. As atualizações críticas da mainnet praticamente pararam, com melhorias como cross-chain e expansão de armazenamento seriamente atrasadas.
Essas decisões levaram ao colapso do ecossistema. Enquanto a comunidade Ethereum crescia com DeFi, NFTs e outros, a base de desenvolvedores de DApps da EOS encolheu. Em 2022, a EOS perdia quase 100 desenvolvedores por mês, e diversos browsers e carteiras foram encerrados.
No fim de 2019, o preço da EOS caiu abaixo de US$5 e chegou a US$1,8, uma queda de 90% em relação ao pico de US$23. Com supernós em crise, desenvolvedores abandonando a rede e a liquidez secando, a EOS precisava de resgate da controladora.
A grande dúvida era: onde foram parar os US$4,2 bilhões? A controladora levantou esse valor para apoiar o desenvolvimento da EOS, ajudar desenvolvedores e incentivar inovação. No entanto, ao pedirem financiamento, desenvolvedores recebiam cheques de apenas US$50.000 — insuficientes até para pagar um programador no Vale do Silício por dois meses.
Em 19 de março de 2019, BM revelou, por e-mail, que em fevereiro daquele ano restavam US$3 bilhões em ativos, dos quais US$2,2 bilhões estavam investidos em títulos do governo dos EUA ('ativos líquidos em moeda fiduciária'). O restante foi aplicado em projetos pouco relacionados à EOS: a empresa de games Forte, a plataforma NFT Immutable e um resort em Porto Rico. Todos os investimentos tinham em comum o distanciamento do ecossistema EOS.
O único projeto realmente vinculado à EOS foi o Voice, uma rede social em smart contracts EOSIO. Foram investidos US$150 milhões, dos quais US$30 milhões foram gastos na compra de domínio de uma grande empresa de Bitcoin. O lançamento do Voice durou apenas meia hora, decepcionou e causou queda no preço da EOS. Após seis meses, a versão iOS chegou repleta de bugs e erros, e o site oficial exibia mensagens de erro alegando proteção contra ataques. Os holders se sentiram traídos. O Voice anunciou encerramento gradual em setembro de 2023.
A estratégia de investimentos da controladora — muita promessa e pouca execução — ficou evidente. Após o fracasso do Voice, a empresa praticamente parou de investir. Hoje, a controladora detém grandes reservas de Bitcoin, que cresceram de US$3 bilhões em 2019 para valores muito maiores, numa verdadeira aula de gestão de ativos. Enquanto isso, a EOS não recebeu apoio algum desse capital.
Enquanto Ethereum Foundation e outras fundações subsidiaram desenvolvedores e promoveram inovação, a controladora da EOS pouco fez. Um investidor inicial chegou a protestar em fóruns: 'Investimos na EOS porque ela prometia revolucionar o blockchain, não para a controladora especular com Bitcoin!'
A estrutura de governança interna da controladora também preocupava: a empresa passou a funcionar como negócio familiar do CEO Brendan Blumer, com BM afastado. Familiares de Blumer ocupavam cargos executivos, e as únicas realizações visíveis eram ações de rebranding, não desenvolvimento do ecossistema. BM admitiu não ter poder de decisão, vendo recursos irem para o EOSIO — uma ferramenta corporativa sem relação com a mainnet.
Em 2021, a comunidade tentou romper o controle da controladora. A EOS Foundation, representando os interesses comunitários, iniciou negociações. Após um mês de discussões sem consenso, a fundação e 17 nós revogaram o poder da controladora, removendo-a da gestão da EOS.
Depois da ruptura, a comunidade EOS travou anos de disputa judicial pelos fundos, mas a controladora manteve o controle. Mais irônico: desde 2024, BM praticamente não fala mais sobre blockchain, limitando-se a discussões técnicas esporádicas. Seu foco passou a ser a pregação teológica, interpretação bíblica, análise geopolítica e críticas ao cristianismo tradicional.
Ao olhar para esses sete anos da história cripto, o colapso da EOS tornou-se um alerta definitivo para o setor, respondendo por que a EOS fracassou. Não importa o TPS prometido ou a complexidade do modelo: se a experiência do usuário afasta as pessoas, tudo perde valor. O 'Ethereum killer' acabou sucumbindo ao próprio modelo econômico, à governança instável e à estagnação tecnológica.
Sete anos atrás, a EOS arrecadou US$4,2 bilhões, celebrada como o maior feito de captação da história do blockchain. Hoje, tornou-se o maior alerta do universo cripto: capital, visão e tecnologia não garantem sucesso sem execução, alinhamento com a comunidade e suporte contínuo. No final, a EOS não matou o Ethereum — matou a si mesma primeiro.
A EOS perdeu espaço devido à centralização, ecossistema de desenvolvedores mais fraco que o Ethereum e adoção lenta. Seu modelo de governança também recebeu críticas importantes da comunidade.
A EOS enfrentou problemas de governança, baixo volume de transações, pouca adesão de desenvolvedores e concorrência de blockchains mais rápidas. O hype inicial não se converteu em crescimento sustentável nem em utilidade real.
A EOS desvaloriza devido ao sentimento negativo do mercado e à falta de avanços relevantes no ecossistema. A confiança dos investidores e as tendências do mercado são fatores-chave para a queda atual.
A EOS enfrentou grandes dificuldades, como congelamento de contas após alegações de roubo, o que prejudicou a confiança dos usuários. Não conseguiu superar o Ethereum e perdeu espaço e adoção no mercado.







