Numa pequena vila de Itália, há mais de três décadas, uma criança cresceu sob a sombra de antigos olivais, rodeada pelo aroma da tradição e do orgulho pelos cores branco e preto. O seu pai era funcionário público, os seus avós cuidavam de gerações de história nas suas terras. Essa criança era Paolo Ardoino, que então não imaginava que um dia comandaria uma das máquinas mais poderosas do mundo financeiro contemporâneo.
Hoje, aos 40 anos, Paolo dirige a Tether, a plataforma de stablecoins mais grande do globo, com um volume de lucros anuais que ronda os 13.000 milhões de dólares. Há pouco mais de uma década, muito poucas pessoas no mundo financeiro tradicional conheciam esta empresa. Agora, a sua influência atravessa fronteiras e desafia as estruturas mais antigas do poder europeu.
Em 12 de dezembro, Paolo apresentou na Bolsa de Valores de Itália uma oferta que faria tremer os alicerces da tradição milenar: adquirir 65,4% das ações da Juventus, o clube mais emblemático do futebol italiano, pertencentes ao grupo Exor, a um preço de 2,66 euros por ação, o que representava uma prima de 20,74% sobre as cotações do mercado. A isto somar-se-ia uma injeção de 1.000 milhões de euros adicionais na instituição desportiva. Sem negociações prévias, sem condições ocultas: apenas dinheiro em efectivo, aquilo que no mundo das finanças é conhecido como “pagamento contra entrega”. Os prazos eram apertados: apenas dez dias para que a família Agnelli tomasse uma decisão.
A rejeição inesperada
A resposta chegou rapidamente. Através de um comunicado oficial, o grupo Exor foi claro: “Atualmente, não existem negociações sobre a venda de ações da Juventus”. A mensagem não requeria interpretação: não estavam à venda.
Menos de vinte e quatro horas depois, reportagens de imprensa sugeriram que a Tether estava a preparar-se para duplicar a sua aposta, elevando a avaliação da Juventus diretamente para 2.000 milhões de euros. O mercado reagiu com entusiasmo, as ações do clube dispararam. Toda a Itália se perguntava se a família que durante cento e dois anos tinha controlado este símbolo de poder acabaria por ceder ao dinheiro novo.
Mas a resposta foi não.
Nove meses de frieza corporativa
A história entre a Tether e a Juventus começou com otimismo há pouco mais de um ano. Em fevereiro de 2025, a Tether anunciou a aquisição de 8,2% das ações do clube, consolidando-se como o segundo maior acionista após o grupo Exor. Nesse momento, Paolo permitiu-se mostrar uma vulnerabilidade incomum nele: “Para mim, a Juventus sempre foi parte da minha vida”, escreveu no seu comunicado oficial.
A lógica parecia impecável: a Tether tinha o capital que a Juventus precisava, e Paolo possuía a paixão que nenhum investidor algorítmico poderia aportar. Deveria ter sido uma união natural, quase predestinada. No entanto, em Itália existem estruturas de poder que não se abrem simplesmente porque alguém tenha dinheiro.
Dois meses após adquirir as suas ações, a Juventus anunciou um plano de aumento de capital de até 110 milhões de euros. Era o momento exato em que Paolo, como segundo acionista maioritário, deveria ter recebido chamadas, emails, oportunidades de participar. Nada. Apenas silêncio. O grupo Exor nem se deu ao trabalho de oferecer uma explicação educada. Paolo, num ato sem precedentes na sua carreira empresarial, teve que escrever nas redes sociais a sua frustração: “Esperávamos aumentar a nossa participação na Juventus através da possível ampliação de capital do clube, mas esse desejo foi ignorado”.
Pela primeira vez na sua vida, um magnata com acesso ilimitado a milhares de milhões de dólares experimentou a exclusão. De abril a outubro, a Tether aumentou a sua participação de 8,2% para 10,7%, comprando gradualmente no mercado aberto. Segundo as regulações italianas, 10% das ações conferem direitos para nomear membros do conselho de administração.
A assembleia de novembro e a estratégia do sentimento
A assembleia anual de acionistas realizada em Turim a 7 de novembro foi o ponto de viragem. A Tether nomeou Francesco Garino, um médico local apaixonado pelo clube desde a infância, tentando demonstrar que não eram invasores externos, mas italianos que partilhavam as mesmas raízes.
A família Agnelli respondeu com a sua própria carta-mestra: Giorgio Chiellini, lenda viva que capitaneou o clube durante dezassete anos e ganhou nove títulos da Serie A. A estratégia era clara: em vez de competir com dinheiro, ganhar com história. No final, a Tether conseguiu um lugar no conselho, mas era um lugar sem poder real, limitado a ouvir sugestões numa mesa completamente controlada pelos Agnelli.
John Elkann, quinta geração da dinastia, proferiu o discurso final: “Estamos orgulhosos de ter sido acionistas da Juventus durante mais de um século. Não temos intenção de vender as nossas ações, embora estejamos abertos a ideias construtivas de todos os interessados”. A tradução direta era inequívoca: este é território familiar, os visitantes são tolerados, mas os donos nunca mudarão.
A glória de cem anos: demasiado valiosa para vender
O legado dos Agnelli não é coisa qualquer. A 24 de julho de 1923, Edoardo Agnelli assumiu a presidência da Juventus com trinta e um anos. Desde esse instante, os destinos da família e do clube entrelaçaram-se indissoluvelmente. O império automóvel Fiat dos Agnelli foi durante grande parte do século vinte a empresa privada mais importante de Itália, empregando milhões de trabalhadores e mantendo a estrutura económica do país.
A Juventus, com trinta e seis títulos da Serie A, duas Champions League e catorze Taças de Itália, é não só o clube mais bem-sucedido da história do futebol italiano, mas um símbolo de poder nacional. Vender o clube significaria admitir o fim de uma era. Significaria reconhecer que nem sequer John Elkann, que passou duas décadas a demonstrar que merecia o poder herdado por sangue, podia manter intacto o império dos seus antepassados.
O colapso financeiro do sonho
O que poucos entendiam era que a Juventus tinha caído num ciclo de destruição económica do qual era difícil escapar. Tudo começou a 10 de julho de 2018, quando o clube anunciou a contratação de Cristiano Ronaldo. Aos trinta e três anos, Cristiano chegava com um contrato de 100 milhões de euros de transferência e 30 milhões anuais líquidos de salário durante quatro anos. O então presidente Andrea Agnelli, quarta geração da família, proclamou entusiasmado que seria “a contratação mais importante na história da Juventus”.
Turim enlouqueceu. Nas primeiras vinte e quatro horas após o anúncio, o clube vendeu mais de 520.000 camisolas, um recorde na história do futebol profissional. O filho de Cristiano Ronaldo, como toda uma geração de menores italianos, passou aqueles dias a ver como o pai se tornava na obsessão de uma cidade inteira.
Mas a Juventus nunca ganhou a Champions League com Cristiano. Foi eliminada pelo Ajax em 2019, pelo Lyon em 2020, pelo Oporto em 2021. Em agosto de 2021, Cristiano partiu repentinamente para o Manchester United. O cálculo final foi brutal: entre transferência, salários e impostos, o custo total de três anos foi de 340 milhões de euros. Em troca, Cristiano marcou 101 golos. Matemática: cada golo custou 2,8 milhões de euros.
A contabilidade criativa e o escândalo
Sem a Champions League, os fluxos de caixa secaram. As prémios televisivos, as receitas dos jogos, os bônus de patrocínio: tudo estava ligado à competição europeia. A Juventus recorreu a operações financeiras que roçavam o suspeito. Vendia Pjanic ao Barcelona por 60 milhões de euros e comprava Arthur por 72 milhões, fazendo parecer que ambas as transações eram independentes, quando na realidade era uma troca coordenada que permitia registar lucros de capital inexistentes.
Este tipo de “criatividade contabilística” não é rara no futebol profissional, mas a Juventus excedeu-se. Os procuradores descobriram que, em três anos, o clube inflou os seus lucros em 282 milhões de euros através de quarenta e duas operações questionáveis semelhantes. O escândalo resultou na renúncia em bloco de todo o conselho, incluindo o presidente Andrea Agnelli. As sanções foram severas: dedução de pontos, exclusão de competições europeias, castigos a executivos.
As perdas acumularam-se. De 39,6 milhões de euros em prejuízos na temporada 2018-19, a situação deteriorou-se até aos 123,7 milhões de euros na temporada 2022-23. O grupo Exor teve que injetar quase 100 milhões de euros adicionais em novembro de 2025. Era a terceira ocasião em dois anos em que os Agnelli resgatavam o clube da falência.
A encruzilhada do poder financeiro
John Elkann enfrentava um dilema sem saída fácil. Os analistas indicavam que a Juventus já era um passivo que corroía os resultados do grupo Exor. No relatório anual de 2024, os lucros líquidos da Exor caíram 12% precisamente pelas perdas acumuladas do clube. Poucos dias antes da oferta da Tether, a Exor vendia o grupo mediático GEDI, proprietário de influentes jornais como “La Repubblica” e “La Stampa”, a investidores gregos por 140 milhões de euros. Um jornal com prejuízos podia ser sacrificado; a Juventus, não.
No entanto, rejeitar dinheiro fresco era um ato de pura vontade política. Significava manter o controlo em troca de continuar a perder dinheiro. Para a mentalidade tradicional europeia que os Agnelli representavam, a hierarquia de valores era clara: o dinheiro dos Agnelli, forjado em aço Fiat, na revolução industrial do século vinte, no suor de milhões de trabalhadores e décadas de construção corporativa, era qualitativamente superior ao dinheiro das criptomoedas, uma indústria que nasceu há apenas uma década e que está cheia de escândalos, colapsos e especulação desenfreada.
Os precedentes estavam frescos na memória coletiva. A empresa blockchain DigitalBits tinha assinado contratos de patrocínio por 85 milhões de euros com o Inter de Milão e a Roma, mas quando a sua cadeia de financiamento quebrou, ambos os clubes sofreram danos reputacionais enormes. O colapso de 2022 na indústria das criptomoedas deixou logos de Luna em estádios de Washington e o nome da FTX em instalações de Miami. Para os Agnelli, Paolo representava essa volatilidade, essa falta de raiz histórica.
O assalto às portas do velho mundo
Mas a realidade histórica não espera que o velho mundo assimile o novo. Na mesma semana em que a Exor rejeitava a oferta da Tether, o Manchester City anunciava a renovação de um patrocínio com uma plataforma de criptomoedas por mais de 100 milhões de euros. Paris Saint-Germain, Barcelona, AC Milan e outros gigantes europeus já tinham estabelecido colaborações profundas com empresas cripto. Na Ásia, as ligas coreana e japonesa tinham aberto as suas portas ao dinheiro digital.
O fenómeno replicava-se em outros setores. Sotheby’s e Christie’s aceitavam pagamentos em bitcoin; em Miami e Dubai era possível comprar mansões de luxo com criptomoedas. A entrada do dinheiro novo em indústrias controladas historicamente pelo dinheiro antigo já não era uma questão de “se acontecerá”, mas de “quando” e “como se adaptarão”.
A questão sem resposta
O que a oferta da Tether colocava transcendia o futebol. Era uma questão fundamental para este momento histórico: quando uma nova geração de empreendedores cria riqueza extraordinária através de mecanismos desconhecidos para a elite tradicional, tem direito a ocupar um lugar nas mesas do poder? Pode o dinheiro jovem comprar o que o dinheiro velho considera património inalienável?
Para John Elkann, a resposta era não. A porta de bronze permaneceria fechada, não porque não precisasse do dinheiro, mas porque abrir essa porta significaria admitir que um século de privilégio, controlo e construção industrial poderia ser substituído por algoritmos e cadeias de blocos. Significaria que os seus antepassados, que construíram impérios com aço e vontade, não eram mais do que elos numa cadeia que o tempo acabaria por substituir.
Para Paolo, no entanto, a resposta deveria ser sim. Não por ambição de poder, mas porque representava algo mais profundo: o direito dos filhos de Itália de construir um novo legado sobre as ruínas do antigo. Paolo não era um invasor estrangeiro, mas um filho do território que gerou riqueza através de ferramentas que o velho mundo ainda não compreendia.
O epílogo ainda por escrever
A narrativa termina naquele olival nos arredores de Turim onde tudo começou. Há trinta e dois anos, uma criança de cabelo escuro se sentava sob os seus ramos, ouvindo os avós trabalharem, vendo na tela figuras vestidas de branco e preto que representavam o auge do poder italiano. Naquele tempo, Paolo não podia conceber que um dia estaria à frente dessas mesmas portas, esperando resposta.
A porta de bronze permanece fechada. Por trás dela repousa o século de glória dos Agnelli, o último brilho de uma era industrial que se desvanece. O dinheiro antigo continua a ser capaz de dizer “não” mesmo quando esse “não” o destrói lentamente. Mas Paolo Ardoino não é alguém acostumado a ser rejeitado. No mundo das criptomoedas, onde o dinheiro se reproduz em telas e viaja através de linhas de código, a persistência é a única moeda que sempre vale.
Por agora, essa porta permanece fechada. Mas quem a bate sabe que é apenas uma questão de tempo. Porque enquanto o dinheiro antigo defende o seu passado, o dinheiro novo já está a construir o futuro. E o futuro, embora às vezes lentamente, acaba sempre por vencer.
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Paolo Ardoino tenta conquistar a Juventus: quando o dinheiro novo desafia um século de tradição
O regresso do filho pródigo
Numa pequena vila de Itália, há mais de três décadas, uma criança cresceu sob a sombra de antigos olivais, rodeada pelo aroma da tradição e do orgulho pelos cores branco e preto. O seu pai era funcionário público, os seus avós cuidavam de gerações de história nas suas terras. Essa criança era Paolo Ardoino, que então não imaginava que um dia comandaria uma das máquinas mais poderosas do mundo financeiro contemporâneo.
Hoje, aos 40 anos, Paolo dirige a Tether, a plataforma de stablecoins mais grande do globo, com um volume de lucros anuais que ronda os 13.000 milhões de dólares. Há pouco mais de uma década, muito poucas pessoas no mundo financeiro tradicional conheciam esta empresa. Agora, a sua influência atravessa fronteiras e desafia as estruturas mais antigas do poder europeu.
Em 12 de dezembro, Paolo apresentou na Bolsa de Valores de Itália uma oferta que faria tremer os alicerces da tradição milenar: adquirir 65,4% das ações da Juventus, o clube mais emblemático do futebol italiano, pertencentes ao grupo Exor, a um preço de 2,66 euros por ação, o que representava uma prima de 20,74% sobre as cotações do mercado. A isto somar-se-ia uma injeção de 1.000 milhões de euros adicionais na instituição desportiva. Sem negociações prévias, sem condições ocultas: apenas dinheiro em efectivo, aquilo que no mundo das finanças é conhecido como “pagamento contra entrega”. Os prazos eram apertados: apenas dez dias para que a família Agnelli tomasse uma decisão.
A rejeição inesperada
A resposta chegou rapidamente. Através de um comunicado oficial, o grupo Exor foi claro: “Atualmente, não existem negociações sobre a venda de ações da Juventus”. A mensagem não requeria interpretação: não estavam à venda.
Menos de vinte e quatro horas depois, reportagens de imprensa sugeriram que a Tether estava a preparar-se para duplicar a sua aposta, elevando a avaliação da Juventus diretamente para 2.000 milhões de euros. O mercado reagiu com entusiasmo, as ações do clube dispararam. Toda a Itália se perguntava se a família que durante cento e dois anos tinha controlado este símbolo de poder acabaria por ceder ao dinheiro novo.
Mas a resposta foi não.
Nove meses de frieza corporativa
A história entre a Tether e a Juventus começou com otimismo há pouco mais de um ano. Em fevereiro de 2025, a Tether anunciou a aquisição de 8,2% das ações do clube, consolidando-se como o segundo maior acionista após o grupo Exor. Nesse momento, Paolo permitiu-se mostrar uma vulnerabilidade incomum nele: “Para mim, a Juventus sempre foi parte da minha vida”, escreveu no seu comunicado oficial.
A lógica parecia impecável: a Tether tinha o capital que a Juventus precisava, e Paolo possuía a paixão que nenhum investidor algorítmico poderia aportar. Deveria ter sido uma união natural, quase predestinada. No entanto, em Itália existem estruturas de poder que não se abrem simplesmente porque alguém tenha dinheiro.
Dois meses após adquirir as suas ações, a Juventus anunciou um plano de aumento de capital de até 110 milhões de euros. Era o momento exato em que Paolo, como segundo acionista maioritário, deveria ter recebido chamadas, emails, oportunidades de participar. Nada. Apenas silêncio. O grupo Exor nem se deu ao trabalho de oferecer uma explicação educada. Paolo, num ato sem precedentes na sua carreira empresarial, teve que escrever nas redes sociais a sua frustração: “Esperávamos aumentar a nossa participação na Juventus através da possível ampliação de capital do clube, mas esse desejo foi ignorado”.
Pela primeira vez na sua vida, um magnata com acesso ilimitado a milhares de milhões de dólares experimentou a exclusão. De abril a outubro, a Tether aumentou a sua participação de 8,2% para 10,7%, comprando gradualmente no mercado aberto. Segundo as regulações italianas, 10% das ações conferem direitos para nomear membros do conselho de administração.
A assembleia de novembro e a estratégia do sentimento
A assembleia anual de acionistas realizada em Turim a 7 de novembro foi o ponto de viragem. A Tether nomeou Francesco Garino, um médico local apaixonado pelo clube desde a infância, tentando demonstrar que não eram invasores externos, mas italianos que partilhavam as mesmas raízes.
A família Agnelli respondeu com a sua própria carta-mestra: Giorgio Chiellini, lenda viva que capitaneou o clube durante dezassete anos e ganhou nove títulos da Serie A. A estratégia era clara: em vez de competir com dinheiro, ganhar com história. No final, a Tether conseguiu um lugar no conselho, mas era um lugar sem poder real, limitado a ouvir sugestões numa mesa completamente controlada pelos Agnelli.
John Elkann, quinta geração da dinastia, proferiu o discurso final: “Estamos orgulhosos de ter sido acionistas da Juventus durante mais de um século. Não temos intenção de vender as nossas ações, embora estejamos abertos a ideias construtivas de todos os interessados”. A tradução direta era inequívoca: este é território familiar, os visitantes são tolerados, mas os donos nunca mudarão.
A glória de cem anos: demasiado valiosa para vender
O legado dos Agnelli não é coisa qualquer. A 24 de julho de 1923, Edoardo Agnelli assumiu a presidência da Juventus com trinta e um anos. Desde esse instante, os destinos da família e do clube entrelaçaram-se indissoluvelmente. O império automóvel Fiat dos Agnelli foi durante grande parte do século vinte a empresa privada mais importante de Itália, empregando milhões de trabalhadores e mantendo a estrutura económica do país.
A Juventus, com trinta e seis títulos da Serie A, duas Champions League e catorze Taças de Itália, é não só o clube mais bem-sucedido da história do futebol italiano, mas um símbolo de poder nacional. Vender o clube significaria admitir o fim de uma era. Significaria reconhecer que nem sequer John Elkann, que passou duas décadas a demonstrar que merecia o poder herdado por sangue, podia manter intacto o império dos seus antepassados.
O colapso financeiro do sonho
O que poucos entendiam era que a Juventus tinha caído num ciclo de destruição económica do qual era difícil escapar. Tudo começou a 10 de julho de 2018, quando o clube anunciou a contratação de Cristiano Ronaldo. Aos trinta e três anos, Cristiano chegava com um contrato de 100 milhões de euros de transferência e 30 milhões anuais líquidos de salário durante quatro anos. O então presidente Andrea Agnelli, quarta geração da família, proclamou entusiasmado que seria “a contratação mais importante na história da Juventus”.
Turim enlouqueceu. Nas primeiras vinte e quatro horas após o anúncio, o clube vendeu mais de 520.000 camisolas, um recorde na história do futebol profissional. O filho de Cristiano Ronaldo, como toda uma geração de menores italianos, passou aqueles dias a ver como o pai se tornava na obsessão de uma cidade inteira.
Mas a Juventus nunca ganhou a Champions League com Cristiano. Foi eliminada pelo Ajax em 2019, pelo Lyon em 2020, pelo Oporto em 2021. Em agosto de 2021, Cristiano partiu repentinamente para o Manchester United. O cálculo final foi brutal: entre transferência, salários e impostos, o custo total de três anos foi de 340 milhões de euros. Em troca, Cristiano marcou 101 golos. Matemática: cada golo custou 2,8 milhões de euros.
A contabilidade criativa e o escândalo
Sem a Champions League, os fluxos de caixa secaram. As prémios televisivos, as receitas dos jogos, os bônus de patrocínio: tudo estava ligado à competição europeia. A Juventus recorreu a operações financeiras que roçavam o suspeito. Vendia Pjanic ao Barcelona por 60 milhões de euros e comprava Arthur por 72 milhões, fazendo parecer que ambas as transações eram independentes, quando na realidade era uma troca coordenada que permitia registar lucros de capital inexistentes.
Este tipo de “criatividade contabilística” não é rara no futebol profissional, mas a Juventus excedeu-se. Os procuradores descobriram que, em três anos, o clube inflou os seus lucros em 282 milhões de euros através de quarenta e duas operações questionáveis semelhantes. O escândalo resultou na renúncia em bloco de todo o conselho, incluindo o presidente Andrea Agnelli. As sanções foram severas: dedução de pontos, exclusão de competições europeias, castigos a executivos.
As perdas acumularam-se. De 39,6 milhões de euros em prejuízos na temporada 2018-19, a situação deteriorou-se até aos 123,7 milhões de euros na temporada 2022-23. O grupo Exor teve que injetar quase 100 milhões de euros adicionais em novembro de 2025. Era a terceira ocasião em dois anos em que os Agnelli resgatavam o clube da falência.
A encruzilhada do poder financeiro
John Elkann enfrentava um dilema sem saída fácil. Os analistas indicavam que a Juventus já era um passivo que corroía os resultados do grupo Exor. No relatório anual de 2024, os lucros líquidos da Exor caíram 12% precisamente pelas perdas acumuladas do clube. Poucos dias antes da oferta da Tether, a Exor vendia o grupo mediático GEDI, proprietário de influentes jornais como “La Repubblica” e “La Stampa”, a investidores gregos por 140 milhões de euros. Um jornal com prejuízos podia ser sacrificado; a Juventus, não.
No entanto, rejeitar dinheiro fresco era um ato de pura vontade política. Significava manter o controlo em troca de continuar a perder dinheiro. Para a mentalidade tradicional europeia que os Agnelli representavam, a hierarquia de valores era clara: o dinheiro dos Agnelli, forjado em aço Fiat, na revolução industrial do século vinte, no suor de milhões de trabalhadores e décadas de construção corporativa, era qualitativamente superior ao dinheiro das criptomoedas, uma indústria que nasceu há apenas uma década e que está cheia de escândalos, colapsos e especulação desenfreada.
Os precedentes estavam frescos na memória coletiva. A empresa blockchain DigitalBits tinha assinado contratos de patrocínio por 85 milhões de euros com o Inter de Milão e a Roma, mas quando a sua cadeia de financiamento quebrou, ambos os clubes sofreram danos reputacionais enormes. O colapso de 2022 na indústria das criptomoedas deixou logos de Luna em estádios de Washington e o nome da FTX em instalações de Miami. Para os Agnelli, Paolo representava essa volatilidade, essa falta de raiz histórica.
O assalto às portas do velho mundo
Mas a realidade histórica não espera que o velho mundo assimile o novo. Na mesma semana em que a Exor rejeitava a oferta da Tether, o Manchester City anunciava a renovação de um patrocínio com uma plataforma de criptomoedas por mais de 100 milhões de euros. Paris Saint-Germain, Barcelona, AC Milan e outros gigantes europeus já tinham estabelecido colaborações profundas com empresas cripto. Na Ásia, as ligas coreana e japonesa tinham aberto as suas portas ao dinheiro digital.
O fenómeno replicava-se em outros setores. Sotheby’s e Christie’s aceitavam pagamentos em bitcoin; em Miami e Dubai era possível comprar mansões de luxo com criptomoedas. A entrada do dinheiro novo em indústrias controladas historicamente pelo dinheiro antigo já não era uma questão de “se acontecerá”, mas de “quando” e “como se adaptarão”.
A questão sem resposta
O que a oferta da Tether colocava transcendia o futebol. Era uma questão fundamental para este momento histórico: quando uma nova geração de empreendedores cria riqueza extraordinária através de mecanismos desconhecidos para a elite tradicional, tem direito a ocupar um lugar nas mesas do poder? Pode o dinheiro jovem comprar o que o dinheiro velho considera património inalienável?
Para John Elkann, a resposta era não. A porta de bronze permaneceria fechada, não porque não precisasse do dinheiro, mas porque abrir essa porta significaria admitir que um século de privilégio, controlo e construção industrial poderia ser substituído por algoritmos e cadeias de blocos. Significaria que os seus antepassados, que construíram impérios com aço e vontade, não eram mais do que elos numa cadeia que o tempo acabaria por substituir.
Para Paolo, no entanto, a resposta deveria ser sim. Não por ambição de poder, mas porque representava algo mais profundo: o direito dos filhos de Itália de construir um novo legado sobre as ruínas do antigo. Paolo não era um invasor estrangeiro, mas um filho do território que gerou riqueza através de ferramentas que o velho mundo ainda não compreendia.
O epílogo ainda por escrever
A narrativa termina naquele olival nos arredores de Turim onde tudo começou. Há trinta e dois anos, uma criança de cabelo escuro se sentava sob os seus ramos, ouvindo os avós trabalharem, vendo na tela figuras vestidas de branco e preto que representavam o auge do poder italiano. Naquele tempo, Paolo não podia conceber que um dia estaria à frente dessas mesmas portas, esperando resposta.
A porta de bronze permanece fechada. Por trás dela repousa o século de glória dos Agnelli, o último brilho de uma era industrial que se desvanece. O dinheiro antigo continua a ser capaz de dizer “não” mesmo quando esse “não” o destrói lentamente. Mas Paolo Ardoino não é alguém acostumado a ser rejeitado. No mundo das criptomoedas, onde o dinheiro se reproduz em telas e viaja através de linhas de código, a persistência é a única moeda que sempre vale.
Por agora, essa porta permanece fechada. Mas quem a bate sabe que é apenas uma questão de tempo. Porque enquanto o dinheiro antigo defende o seu passado, o dinheiro novo já está a construir o futuro. E o futuro, embora às vezes lentamente, acaba sempre por vencer.