Ray Dalio: Se os EUA perderem o Golfo Pérsico, perderão muito mais do que uma guerra

Original title: It All Comes Down to Who Controls the Strait of Hormuz: The “Final Battle”

Original author: Ray Dalio

Original compilation: Peggy, BlockBeats

Editor’s note: Na maioria das guerras, divergências e incertezas são a norma. Mas nesta conflito em torno do Irã, o critério de vitória é bastante claro: quem controla o Estreito de Hormuz.

Esta não é apenas uma rota de transporte de energia, mas também a «válvula» do fluxo de capitais globais e da estrutura de poder geopolítico. Uma vez que o direito de passagem seja weaponizado, seu impacto se espalhará rapidamente para os preços do petróleo, inflação, mercados financeiros e até toda a ordem internacional.

Ray Dalio apresenta uma avaliação bastante direta neste artigo: se o Irã mantiver o controle do Hormuz (mesmo que seja apenas como uma carta de negociação), o resultado desta guerra será considerado uma derrota dos EUA. E o significado dessa derrota vai muito além de uma questão militar.

Partindo de comparações históricas, o autor aponta que momentos semelhantes costumam marcar uma mudança na estrutura de poder; e, com base nisso, insere o conflito no contexto de um «grande ciclo histórico», considerando que a atual situação no Oriente Médio é apenas uma fase da evolução conjunta de dívidas, política e geopolítica.

Quando a vitória ou derrota de uma guerra pode ser medida pela passagem de um estreito, seu significado não se limita ao Oriente Médio, mas aponta para o próximo estágio da ordem mundial.

A seguir, o texto original:

Sempre que confronto com o passado, comparando situações similares, e ajustando minhas reflexões com as opiniões de decisores e especialistas mais informados, consigo tomar decisões melhores.

Percebo que esses momentos costumam vir acompanhados de grandes divergências sobre o futuro e de surpresas. Contudo, há uma questão quase unânime nesta crise: quem controla o Estreito de Hormuz.

O consenso que ouço de governos, especialistas em geopolítica e observadores ao redor do mundo é: se o Irã ainda detém o controle do trânsito pelo Hormuz, ou mesmo apenas a capacidade de usá-lo como moeda de negociação, então:

Os EUA perderão, o Irã vencerá

Os EUA serão considerados derrotados nesta guerra, enquanto o Irã será visto como o vencedor. A razão é simples: se o Irã consegue usar o Estreito de Hormuz como uma «arma», isso significa que os EUA não têm capacidade de resolver a questão.

Este estreito é uma das rotas de energia mais críticas do mundo, devendo ser protegido a qualquer custo. Pois, se for bloqueado pelo Irã, o prejuízo não será apenas para os EUA, mas também para seus aliados no Golfo, países dependentes do transporte de petróleo, a economia global e toda a ordem internacional.

De modo geral, o resultado da guerra pode ser avaliado por um único indicador: se o Estreito de Hormuz permanece seguro para passagem. Se Trump e os EUA não conseguirem «vencer» essa guerra, serão considerados não só derrotados, mas também responsáveis por criar uma situação sem solução aparente.

Por que não conseguem vencer? Isso não importa tanto. Seria a influência do sentimento anti-guerra nas eleições de meio de mandato? A relutância da sociedade americana em arcar com os custos do conflito? A insuficiência de capacidades militares? Ou a incapacidade de mobilizar aliados para manter a rota aberta?

Essas questões são secundárias. O resultado é um só: os EUA perderam.

Historicamente, esse tipo de derrota pode ter consequências muito graves. Perder o controle do Hormuz para os EUA pode ser como a Crise do Canal de Suez em 1956 para o Reino Unido (quando o país foi forçado a recuar na questão do canal, levando a uma mudança no equilíbrio de poder global), ou como a perda de vantagem naval e financeira da Espanha no século XVII (devido ao esgotamento financeiro e enfraquecimento naval), ou a substituição da Holanda como centro de comércio e finanças no século XVIII (com a ascensão da Grã-Bretanha), marcando momentos de declínio imperial.

A história se repete com roteiros semelhantes: um país aparentemente mais fraco desafia a potência dominante numa rota comercial crucial; a potência dominante faz ameaças, enquanto o mundo observa o desfecho; e, então, há uma redistribuição de posições e capitais conforme o resultado.

Essa «batalha decisiva» costuma reescrever a história rapidamente, pois pessoas e dinheiro tendem a migrar naturalmente para o lado do vencedor. Essa mudança se reflete nos mercados — em títulos, moedas, ouro — e na estrutura de poder geopolítico mais profunda.

Com base em inúmeros exemplos históricos, extraí uma regra simples, mas importante: quando uma potência dominante, com reserva de moeda global, enfrenta uma expansão fiscal excessiva e ao mesmo tempo mostra sinais de fraqueza militar e financeira, é preciso ficar atento: seus aliados e credores podem perder a confiança, começar a vender seus títulos, a moeda enfraquecer e, eventualmente, a posição de reserva de moeda ser questionada.

Se os EUA e Trump não conseguirem controlar o fluxo pelo Hormuz, esses riscos aumentam significativamente.

No passado, acreditava-se que os EUA poderiam esmagar seus adversários na força militar e financeira. Mas as experiências com Vietnã, Afeganistão, Iraque, e agora essa possível crise, estão corroendo essa crença, além de abalar a ordem internacional liderada pelos EUA após a Segunda Guerra Mundial.

Por outro lado, quando um país líder demonstra força militar e financeira de forma clara, sua credibilidade se reforça. Por exemplo, Reagan, ao assumir, conseguiu libertar os reféns no Irã e, durante a Guerra Irã-Iraque, forneceu escoltas às suas petroleiras, fortalecendo a dissuasão americana.

Se Trump cumprir suas promessas de garantir a passagem pelo Hormuz e conter a ameaça iraniana, sua credibilidade internacional será significativamente reforçada.

Por outro lado, se o Estreito cair nas mãos do Irã e for usado como uma arma de ameaça, o mundo se tornará refém dele. Isso não só significará que o fluxo de energia global será «sequestrado», mas também que os EUA terão «provocado a guerra e não vencido». A credibilidade de Trump sofrerá um impacto direto, especialmente considerando suas declarações firmes anteriores.

Muitos formuladores de política externa admitem, nos bastidores, que «ele fala bem, mas a questão é: na hora H, ele consegue vencer?». Alguns até veem essa crise como um «duelo final», como uma arena de luta, como uma final de campeonato.

Trump está convocando outros países para participar da missão de escolta, e sua capacidade de mobilizar aliados será um teste de sua liderança. A realidade é que, apenas com EUA e Israel, é difícil garantir a passagem sem enfraquecer o controle iraniano — provavelmente será necessária uma grande operação militar.

A postura do Irã, por sua vez, é diametralmente oposta. Para eles, trata-se de uma questão de sobrevivência e convicção. Estão dispostos a pagar um preço alto, até sacrificar vidas. Já a sociedade americana está mais preocupada com o preço do petróleo e com as eleições.

Na guerra, quem consegue «suportar a dor» muitas vezes importa mais do que quem consegue «causar dor».

A estratégia do Irã provavelmente será de arrastar o conflito, prolongando a guerra e a dor, até que os EUA percam a paciência e recuem. Quando isso acontecer, os aliados dos EUA perceberão rapidamente que o país não estará sempre ao seu lado.

«Negociações» são apenas uma fachada

Embora haja discussões sobre uma resolução negociada, todos sabem que acordos não resolvem de verdade o problema. Quase todos reconhecem que esse tipo de conflito não se resolve por acordo. A verdadeira decisão virá na próxima «batalha decisiva».

Independentemente de o Irã manter o controle do Hormuz ou perdê-lo, o conflito entrará na fase mais intensa. Essa «batalha final» provavelmente será de grande escala.

O exército iraniano já declarou: «Qualquer instalação energética na região relacionada ou colaborando com os EUA será destruída.» Essa é uma possibilidade real de ação. Se Trump conseguir unir outros países na escolta e o canal ainda não estiver minado, talvez haja uma saída. Mas todos sabem que a batalha decisiva ainda está por vir. Se os EUA não conseguirem reabrir o estreito, as consequências serão graves; se conseguirem, e eliminarem a ameaça iraniana, sua reputação será enormemente fortalecida.

A «batalha final» afetará o mundo

O impacto desta «batalha final» será global, direta e indiretamente. Influenciará o comércio, o fluxo de capitais e a geopolítica envolvendo China, Rússia, Coreia do Norte, Cuba, Ucrânia, Europa, Índia, Japão e outros.

Mais importante, esse conflito não é um evento isolado, mas parte de um «grande ciclo histórico» em andamento. Esse ciclo é impulsionado por forças financeiras, políticas e tecnológicas. A situação no Oriente Médio é apenas um aspecto dessa dinâmica.

Por exemplo, a capacidade de um país vencer uma guerra depende do número e da intensidade dos conflitos, do seu cenário político interno e das relações com países aliados ou com interesses semelhantes (Irã, Rússia, China, Coreia do Norte). Nenhum país consegue lidar com múltiplas guerras ao mesmo tempo, e, num mundo altamente interconectado, conflitos se espalham de forma imprevisível, como uma pandemia.

Além disso, em democracias com profundas diferenças de riqueza e valores, há sempre debates acalorados sobre «entrar na guerra» e «quem paga o preço» (dinheiro ou vidas). Essas reações em cadeia são difíceis de prever, mas os resultados geralmente não são ideais.

Por fim, quero deixar claro que não falo por uma posição política, mas como alguém que precisa fazer avaliações sobre o futuro. Estudando os últimos 500 anos de história de impérios, ciclos de dívida e substituição de moedas de reserva, identifiquei cinco forças que impulsionam as mudanças na ordem mundial:

  1. Ciclos de dívida de longo prazo

  2. Ciclos de ascensão e declínio do sistema político

  3. Ciclos de ordem geopolítica internacional

  4. Avanços tecnológicos

  5. Eventos naturais

A situação no Oriente Médio é apenas um fragmento desse «grande ciclo». Embora não seja possível prever todos os detalhes, o funcionamento dessas forças pode ser observado e avaliado.

A história nem sempre se repete, mas costuma seguir ritmos semelhantes. O mais importante é que você avalie se esse «grande ciclo» está em andamento, em que fase estamos, e como agir diante desse cenário.

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