Antes de compreender o funcionamento do RWA, é fundamental esclarecer um ponto-chave: ativos do mundo real não podem existir diretamente na blockchain.
A blockchain é, em essência, um sistema de registro distribuído de informações digitais. Ela normalmente armazena:
No entanto, a maior parte dos ativos do mundo real não são informações digitais puras; são bens físicos ou direitos legais, como:
Esses ativos existem, em geral, dentro de sistemas jurídicos e registros de ativos no mundo real, como cartórios de imóveis, livros de bancos ou balanços de empresas.
Portanto, a blockchain não pode “armazenar” esses ativos diretamente.
Ou seja, o essencial do RWA não é transferir fisicamente os ativos para a blockchain, mas sim mapear as informações de direitos desses ativos para a blockchain por meio de estruturas técnicas e legais. O que a blockchain registra não é o ativo em si, mas sim sua titularidade ou direitos de rendimento.
Por exemplo, ao tokenizar um imóvel, a blockchain registra quantos tokens um determinado endereço possui, e esses tokens representam uma fração dos direitos sobre o imóvel, conforme a estrutura legal. Assim, ativos reais podem ser gerenciados digitalmente na blockchain, mas continuam dependendo do reconhecimento dos sistemas jurídicos do mundo real para confirmação de propriedade.
Na prática, um projeto de RWA completo não depende apenas da tecnologia blockchain, mas envolve diversos participantes formando uma estrutura financeira integrada.
Um projeto típico de RWA conta com os seguintes participantes principais:
O originador do ativo é quem fornece o ativo do mundo real.
Podem ser:
Essas entidades ofertam ativos passíveis de tokenização, como projetos imobiliários, créditos ou cotas de fundos.
Em resumo, o originador é a fonte dos ativos em toda a estrutura do RWA.
Para garantir a legalidade dos direitos sobre os ativos, projetos de RWA geralmente estabelecem uma SPV (Special Purpose Vehicle – Sociedade de Propósito Específico).
A SPV é uma entidade legal criada exclusivamente para deter um ativo ou administrar um investimento.
Os principais objetivos de uma SPV incluem:
Em muitos projetos de RWA, quando investidores compram tokens, eles não passam a ser proprietários diretos do ativo, mas sim titulares indiretos dos direitos representados pela SPV.
Essa estrutura também é amplamente utilizada nas finanças tradicionais, como em operações de securitização de ativos.
Ativos do mundo real devem ser mantidos ou administrados por instituições terceirizadas.
Custodiantes comuns incluem:
As principais responsabilidades do custodiante são:
O mecanismo de custódia é fundamental em projetos de RWA, pois impacta diretamente a confiança dos investidores na autenticidade dos ativos.
A plataforma blockchain é a infraestrutura tecnológica do RWA.
Ela é responsável por:
Por meio da blockchain, tokens podem ser transferidos e negociados globalmente, ampliando a liquidez dos ativos.
Os investidores são os provedores de capital no sistema RWA.
Ao adquirir tokens, eles podem obter:
Os investidores podem optar por manter os tokens para retorno de longo prazo ou negociá-los em mercados secundários.
Após conhecer os participantes, veja como funciona a operação de um projeto típico de RWA.

Um projeto completo de RWA geralmente segue cinco etapas:
A equipe do projeto precisa, primeiramente, identificar ativos do mundo real adequados para tokenização.
Tipos de ativos comuns:
Esses ativos geralmente apresentam algumas características:
Ativos que cumprem esses critérios são mais facilmente aceitos por investidores e mais adequados para a tokenização.
Uma vez escolhido o ativo, a equipe do projeto normalmente estabelece uma estrutura legal correspondente.
A abordagem mais comum é criar uma empresa SPV.
As principais funções da SPV:
Com essa estrutura, ao adquirir tokens, o investidor passa a deter direitos sobre ativos representados pela SPV. Isso reduz riscos legais e assegura proteção ao investidor.
Para garantir a segurança dos ativos, eles são mantidos, em geral, por instituições terceirizadas independentes.
Custodiantes são responsáveis por:
Por exemplo, em projetos de ouro tokenizado, o metal é armazenado em cofres profissionais e o custodiante emite periodicamente certificados de reserva.
A existência de um mecanismo de custódia aumenta significativamente a credibilidade de um projeto de RWA.
Após estruturar legalmente e definir a custódia, a equipe do projeto emite tokens de ativos via blockchain.
Cada token normalmente representa uma fração da propriedade ou do direito de rendimento do ativo.
Por exemplo: Se um ativo vale US$ 10 milhões, a equipe pode emitir 1 milhão de tokens. Cada token corresponde a uma pequena parte dos direitos sobre o ativo. Assim, grandes ativos podem ser fracionados em cotas menores, reduzindo o valor mínimo de investimento.
Após a emissão dos tokens, investidores podem realizar diferentes operações na rede blockchain, como:
Por exemplo, se o ativo tokenizado for um título de dívida, o investidor recebe rendimentos de juros conforme a quantidade de tokens que possui.
A blockchain registra automaticamente as transações e distribui rendimentos conforme regras definidas em contratos inteligentes, o que aumenta a eficiência e a transparência.
O RWA é frequentemente classificado como um modelo financeiro híbrido, que combina “on-chain” e “off-chain”.
Resumidamente:
A parte on-chain gerencia principalmente:
A parte off-chain cuida de:
O RWA não é um sistema totalmente descentralizado; trata-se de uma estrutura financeira híbrida que une sistemas financeiros tradicionais à tecnologia blockchain.
A blockchain oferece infraestrutura transparente para transações, enquanto leis e instituições do mundo real garantem a autenticidade dos direitos sobre os ativos.
Imagine que uma indústria vendeu mercadorias no valor de US$ 5 milhões para um grande cliente, mas o pagamento só será recebido em 90 dias. No mercado financeiro tradicional, empresas recorrem a bancos ou companhias de fomento mercantil para antecipar esse recebimento e garantir fluxo de caixa.
No modelo RWA, o processo pode ocorrer assim:
Assim, o que antes era restrito a operações entre empresas e bancos se torna acessível a investidores globais via blockchain — criando novas fontes de rendimento para o capital on-chain.
O núcleo do RWA não é simplesmente “colocar ativos na blockchain”, mas mapear direitos sobre ativos do mundo real em tokens on-chain, por meio de etapas como estruturação legal, custódia de ativos e emissão de tokens.
Um projeto típico de RWA envolve as seguintes etapas:
Com essa estrutura, o RWA conecta ativos do mundo real ao universo das finanças baseadas em blockchain.
À medida que a infraestrutura blockchain e o ambiente regulatório amadurecem, esse modelo se consolida como uma das principais pontes entre finanças tradicionais e criptofinanças.